10 de dez. de 2025

F.O.D.A. - SE (Parte 4)

 Por Gustavo Coelho

Por um segundo, ambos ficaram imóveis.

Marcos soltou uma gargalhada alta, que atraiu a atenção de algumas pessoas da fila.

— Meu Deus, cara... — disse ele, entre risos, com os olhos já lacrimejando. — FODA-SE! Literalmente! Não é possível!

— Só queria saber como você conseguiu meus dados para essa bosta de evento?

— Sério, Chico? Hahaha. Esqueceu do meu rolo com a Bianca do R.H.?

Francisco, sem ver graça alguma, pegou o crachá com resignação e o girou nas mãos.

— Isso vai ser um desastre... — murmurou. — Isso sou eu. Isso é minha vida inteira resumida em um pedaço de plástico.

Marcos, ainda rindo, deu um tapinha no ombro do amigo:

— Pelo menos hoje você já começa com um aviso. Quem quiser, vai saber com o que tá lidando.

Francisco olhou ao redor, segurando o crachá com dois dedos, o objeto pesando mais que sua própria dignidade.

— Eu devia ter ficado em casa...

Depois de três rodadas humilhantes, em que Francisco foi alvo de piadas por parte das pretendentes, a noite parecia arruinada. Cada nova mulher que se sentava à sua frente notava o crachá pendurado em seu peito, franzia a testa por um segundo, lia em voz alta "F.O.D.A. – SE", e então vinha a risada — algumas disfarçadas, outras escancaradas. Ele não contou, mas a última risada foi demais, o que não conseguiu tolerar: se levantou da cadeira e saiu andando em direção à saída do salão. O evento ainda seguia animado, com música baixa e pessoas conversando nos cantos, mas para ele tudo havia acabado.

Marcos, percebendo a ação repentina do amigo, gritou e correu atrás dele, empurrando as pessoas no meio do caminho:

— Francisco! Ei, espera aí! Cara! — insistia, acelerando o passo.

Francisco não respondia. Seguia firme, como se andar rápido fosse a única maneira de não desmoronar ali mesmo. Quando estava fora do prédio, sobre a calçada úmida de sereno e sob a iluminação de postes espaçados, ele enfim diminuiu o ritmo. Seu rosto ainda estava quente, os olhos sem brilho, os ombros pesados.

— Francisco... — Marcos se aproximou ofegante. — Me desculpa, cara. Eu juro que não sabia que iam usar o nome no crachá desse jeito.

Francisco respirou fundo e parou, olhando para o asfalto escuro à sua frente.

— Sabe o que mais me incomoda? — perguntou, com a voz mais baixa. — Não é só o crachá. É que eu me esforço, de verdade. Tento fazer tudo certo. E sempre, sempre dá errado.

Marcos tentou esboçar um sorriso, estendendo o braço para um leve tapinha nas costas do amigo.

— Bom, já que estamos aqui fora, tem um parque logo ali. Bora andar um pouco. Vai te fazer bem. E eu te escuto reclamar o quanto quiser. De graça.

Francisco soltou um riso sem graça, mais pelo gesto do que pela piada.

— Contando que hoje não apareça mais nenhuma zebra... — murmurou, caminhando ao lado do amigo.

— Ah, mas se aparecer, pelo menos é do zoológico e não vai rir do seu crachá — Marcos brincou.

Os dois seguiram em silêncio, a noite movimentada, cruzando a rua em direção ao parque. Pela primeira vez em horas, Francisco sentia que seu azar ficava para trás, mesmo que só por alguns passos.

Francisco soltou um sorriso torto, um reflexo involuntário diante da piada da zebra, que logo cedeu espaço a um semblante sério, o olhar distante, perdido entre os galhos das árvores iluminadas pelas luzes amarelas do parque.

— Eu não entendo, Marcos... — começou, com a voz baixa e rouca. — Como é possível tudo na minha vida sempre terminar em merda? Olha isso – apontou para seu crachá. – Eu realmente queria dar um foda-se pra tudo. Mas parece que até o universo resolveu me sacanear com isso.

Marcos, calado, mantinha o passo ao lado, atento.

— Achei que depois de tudo que passei, eu estaria mais preparado pra essas rasteiras. Mas a traição dela... — ele engoliu em seco. — Aquilo ali foi a pior de todas.

Houve um breve silêncio.

— Eu já tentei, cara. De verdade. Estudo, trabalho, metas, sacrifício – tudo. Mas nunca vem o reconhecimento, sabe? Nunca tem aquela vitória, aquele “você conseguiu, Francisco”. Sempre tem alguma coisa pra puxar meu tapete. Um erro, uma distração, uma ironia estúpida do destino — ele chutou uma pedra, que bateu em um banco de madeira e ricocheteou para o meio do caminho.

Marcos suspirou e concordou com a cabeça, como quem compreende sem julgar.

— Vem, vamos ali no quiosque do zoológico — apontou com o queixo. — Acho que você tá precisando de uma dose de alguma coisa forte. E eu também. Alguém tem que te ouvir até o fim dessa história toda, né?

Francisco não resistiu. Seguiu o amigo, os ombros ainda curvados, mas agora com certo alívio de finalmente tirar um pouco do peso do peito.

Ao entrarem no zoológico, Francisco e Marcos se depararam com um aglomerado incomum e gritos desesperados: uma multidão se reunia em volta de um cercado. Os dois se aproximaram para entender o que estava acontecendo.

Na beira de um fosso, agarrado com força a uma pedra que sobressaía da encosta, estava um garoto de cerca de sete anos, o rosto banhado em lágrimas e os braços tremendo pelo esforço.

— Fica aqui, Francisco. Vou até a guarita pedir ajuda! — avisou Marcos, se virando e correndo pelo caminho de volta.

Francisco permaneceu onde estava, olhando para a criança em pânico, os dedos escorregando aos poucos da pedra. Respirou fundo. Mas num impulso, tomou uma decisão: tocou no crachá preso em seu peito e subiu no pequeno parapeito de segurança, saltando o cercado baixo que separava os visitantes do fosso. Um burburinho irrompeu da multidão.

Com cautela, ele se aproximou da borda e começou a descer pelas pedras. Os calçados não ofereciam nenhuma segurança, mas ele se apoiava como podia, com os olhos fixos no menino.

— Ei, garoto, vai ficar tudo bem, tá? — disse, tentando parecer forte.

O menino o encarava com um misto de medo e esperança. Francisco desceu mais um pouco e firmou os pés na encosta. Encostou seu ombro, com cuidado, abaixo dos pés da criança.

— Se apoia aqui. Eu tô com você. Vai dar tudo certo.

Lentamente, o garoto transferiu o peso do corpo para Francisco, que o segurou com firmeza. Nesse instante, outro espectador, provavelmente tocado pelo ato, saltou o cercado e correu até a borda, inclinando-se o máximo que podia com o corpo para dentro do fosso.

— Vem, garoto! Me dá a mão! — gritou o homem, estendendo o braço.

Faltavam apenas alguns centímetros. Francisco, reunindo suas últimas forças, impulsionou o garoto para cima. Foi o suficiente. O menino agarrou a mão estendida e, com a ajuda de um segundo homem, foi puxado para cima com segurança.

Mas, no momento que impulsionou o garoto, Francisco perdeu o equilíbrio. Seu pé deslizou sobre a pedra úmida. Tentou se segurar, mas o peso do corpo o puxou para trás, caindo em direção ao fundo do fosso.

Um coro de gritos tomou conta da multidão. Francisco permaneceu caído por alguns segundos, com o rosto contraído de dor, o peito arfando. Ainda consciente, mas sem forças para se levantar, apenas fechou os olhos por um momento, sentindo a velha e familiar presença do azar mais uma vez lhe dando as boas-vindas.

Alguns segundos ele passou em um silêncio abafado pelo zunido em seus ouvidos. Francisco abriu os olhos devagar, sentindo um peso estranho no corpo. A dor estava mais fraca. Tateou o próprio peito, mexeu os dedos e pernas — estava inteiro. Aos poucos, ergueu-se com dificuldade, retirando folhas e galhos grudados à roupa.

Olhou ao redor e percebeu que havia caído em uma porção de grama alta e moitas densas, que felizmente amorteceram a queda. Respirou fundo. Estava vivo.

Ao levantar os olhos, viu uma cena que o fez congelar: a multidão em volta do fosso batia palmas, como se clamasse por algo. Algumas pessoas assoviavam, outras gritavam palavras que, ao seu ver, pareciam de incentivo. Braços se levantavam, celulares filmavam. Pela primeira vez em muito tempo, Francisco sentiu um calor no peito que não era angústia. Era orgulho. Reconhecimento.

Sorriu, meio sem jeito. Deu um aceno tímido. Um grupo de jovens gritou seu nome — ou o que achavam ser seu nome, pela sigla do crachá — e ele quase esqueceu o incômodo de tê-lo carregado até ali. Lá em cima, ele avistou Marcos ao lado de um segurança, gesticulando freneticamente. O amigo apontava para o lado, depois para o fosso, fazia círculos com os braços, os olhos arregalados. Francisco franziu a testa.

— O que ele tá...?

Antes que pudesse terminar a frase, percebeu algo estranho. A vibração dos aplausos havia mudado. Os rostos da plateia deixaram de expressar entusiasmo para revelar horror.

As mãos que antes apontavam para ele, agora miravam algo atrás dele.

Francisco virou lentamente a cabeça.

A poucos metros, entre as sombras das árvores baixas e o capim alto, dois grandes olhos âmbar o encaravam fixamente. A juba dourada balançava levemente com o vento. O leão estava parado, observando. E, pela forma como movia as patas em direção a ele, parecia que o cuidador não o havia alimentado ainda.

O corpo de Francisco paralisou. O som ambiente se diluiu. O sangue lhe subiu à cabeça, seus joelhos começaram a fraquejar.

Marcos, seu amigo, gritava, mas ele não ouvia mais.

Só uma palavra martelava sua mente, escapando de seus lábios, como uma rendição:

— FODA-SE!

FIM.

* Leia a parte 3.


Gustavo Coelho, natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação.