7 de out. de 2021

Como um cenário de uma batalha cancelada

Por MiltonRezende

Avaliação noturna

Este pedaço de céu

que me foi permitido entrever

entre os edifícios,

assemelha-se a uma parte de mim

que ainda se resguarda

para nada. 

 

Confronto

A minha vida

foi construir o cenário

de uma batalha cancelada.

 

Mas não fui avisado a tempo

e permaneci no ringue

indagando a mim mesmo

sobre a ausência do inimigo.

 

Não havia plateia e nem aliados

e eu fiquei no palco simplesmente

porque já não podia sair dele

sem me sentir derrotado.

 

Preparei-me integralmente

em função dessa luta decisiva

e me acostumei tanto a esperá-la

que já não podia aceitar o contrário.

 

Fiquei muito tempo naquele cenário

e o hábito de estar nele

já me levava a reconhecê-lo

como sendo uma criação fictícia

a propósito de uma batalha cancelada.

 

Virei as costas ao meu projeto

e deixei aquele espaço onde eu havia

esperado tanto que já não sabia o sentido

de permanecer ali em posição de combate.

 

Mas assim que deixei o estádio

os portões foram abertos de súbito

e uma multidão em delírio festejava

a minha derrota covarde de não estar ali. 

 

Explicação de um silêncio

Fala em meu cérebro

o projeto de uma fala

que arquiteto em segredo

de não saber falar.

 

Levei muitos anos

para decifrar

meu código interior,

mas como não fiz anotações,

hoje não sei reproduzi-lo

em caracteres humanos.

 

Então falo comigo em silêncio

como se eu abarcasse em mim

toda uma plenária em murmúrio.

E aquilo que escrevo é o resultado

desse diálogo numa sala vazia.


Do livro Areia (Á Fragmentação da Pedra) (João Scortecci Editora, 1989). Pedidos de exemplares pelo e-mail coisasprobule@gmail.com. Preço R$ 20,00 + R$ 10,00 frete = R$ 30,00.