19 de nov. de 2011

Novo Especial Poesia n'O BULE - Dia 2

No ar, mais uma edição do Especial de Poesia d’O BULE. Convidamos os leitores e seguidores do site a mergulharem nesse magma de poemas e se deixarem envolver pela magia das palavras. Os poetas e as poetas aqui reunidos representam bem a produção de poesia contemporânea, cuja marca maior é a heterogeneidade de estilos, de vozes. Como disse Octávio Paz, em Os filhos do barro: “O moderno não é caracterizado unicamente por sua novidade, mas por sua heterogeneidade”. Sem dúvida, cada poema postado aqui exige do leitor ou da leitora uma viagem única pelos desvãos da linguagem poética, “... linguagem carregada de significados”, como a definiria Ezra Pound. É com esse espírito que convidamos a todos e a todas a apreciarem a poesia de Claudio Willer (São Paulo), Nydia Bonetti (São Paulo), Paulo Kauim (Brasília), Claudio Daniel (São Paulo), Cristina Bastos (Minas Gerais/Brasília), Munique Duarte (Minas Gerais), Sylvia Beirute (Portugal), Márcio-André (Rio de Janeiro/Portugal), Abreu Paxe (Angola) e Lau Siqueira (Rio Grande do Sul/Paraíba). Para melhor fruição da leitura dos textos de cada autor e de cada autora, dividimos esta edição em três postagens: Especial de Poesia – Parte I (dia 18/11), Especial de Poesia – Parte II (dia 19/11) e Especial de Poesia – Parte III (dia 20/11).


Por Claudio Willer

A verdadeira história do século xx

Em certas horas de solidão e frio implacável em que tudo vacila, e que, parece, poucas épocas conheceram, em meio a uma lucidez tão gélida, confessaríamos para nós mesmos, de modo tão natural, que temos menos sede de verdade do que de revelação.

Julien Gracq

contemplação: estrela no fundo do mar

você: véu de gaze azulada roçando, suave apelo

furacão: róseo

perfeição: parábola de perfumes

lâmina: a mente alucinada

gruta: você e os arcanos da natureza

matemática do sonho: esta nuvem

gelo: explosão de relâmpagos

essa solidez, essa presença: capim ao vento

rápidos, passando à frente: lavanda

e também sombra de árvore

montanha: inteiramente nossa

intimidade sorridente: no calor da tarde

Íris: o nome da flor, o seio ao sol

- quanta coisa você fez que eu visse

o acaso nos transportava e podíamos ir a qualquer lugar

o mundo tinha janelas abertas

e tudo era primeira vez

gnose do redemoinho, foi o que soubemos

Líricas

Nada deves temer do azul

André Breton

1

nós, os viventes sonhados

aqueles do horizonte abissal

a descobrir tanta coisa:

a cachoeira a esvair-se à beira do caminho

nosso tempo, com seu formato de bola incandescente

– olhá-lo é assustador

2

seus olhos de vertigem azul

e contemplação de precipícios

seus pés que deixam um rastro de perdas

sua voz aveludada, encontro de muitas vozes

amá-la foi amar um fantasma

precisava seguir à deriva

para encontrá-la como aparição

– de nossos encontros resultaram sonhos

pois a vida é extensa como uma revelação

e nunca foi tão fácil descrever os nítidos contornos de uma fascinação secreta e íntima

– o esplendor da umidade na ponta dos seus dedos será uma lembrança eterna

3

anotar todos os símbolos:

quando não existe mais nada, exceto o vazio perfeito,

então a palavra se impõe

(do livro a sair A verdadeira história do século XX)

Claudio Willer (São Paulo, 1940) é poeta, ensaísta e tradutor, ligado à criação literária mais rebelde e transgressiva, ao surrealismo e à geração beat. Publicações recentes: Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e poesia, ensaio; Geração Beat; Estranhas Experiências, poesia. Traduziu Lautréamont, Ginsberg e Artaud. Publicado em antologias e periódicos no Brasil e outros países. Doutor em Letras na USP, onde deu cursos sobre surrealismo e geração beat.


Por Munique Duarte

Com um golpe certeiro

Talvez seja assim
talvez valha a pena
a minha navalha
cortando a sua carne tenra
de véspera de feriado
meu amor bailou
na curva torpe
ao som de uma orquestra qualquer
saliva azul
de minhas nuvens chorosas
salina crua
de minhas pedras amorosas
sabatina pura
por detrás de maçã podre
saraivada de lua
em dia de primavera rasgada
cheia de abelhas, joaninhas
ratos no meu miocárdio
caraminholas necrosadas
enterradas onde nascem outras, outras, outras e tantas outras
caraminholas cinzas
extintas de minha estirpe
de minha tendência de salto agulha
e furo na pálpebra
de quem nunca mais adormecerá ao meu lado
nunca
em meus lençóis manchados
nunca
em minhas memórias
pontiagudas
nunca
em meu travesseiro marrom encontrado no meio da rua.

Nunca.

Encapsulada

Confabula, Fabíola!
Confabula, sua mula!
Senão ele não te nota
Ele não lê a sua bula
Confabula suas fábulas,
Fabíola!
Confabula, sua burra!
Sua fábrica fechada
Sua nota fá bem curta
Confabula com fé
Que na virada da lua
Sua confabulação será ouvida
Por fadas, de sardas, de saias
Confabula, Fabíola
Confabula, sua crua
Ensimesmada, encapsulada
Confabula seu fado
Confabula seu fardo
Confabula já bem farta
De si mesma.

Jurada de inferno

Espremida entre o cinza e o vermelho-fogo
Jurada de morar no inferno
Mãos roxas de fim de inverno
Quero troco
Lágrima pútrida
Me vinguei, me vinguei, me vinguei
Doce coágulo mordido
Percorri seu corpo magrelo
Com meus dedos pequenos
Agarrei a tesoura
E a usei sem dó
Tesourei, tesourei, tesourei
Fiapos loiros caídos
Ri
Arrematei com minha língua amarelada
Tornozelo, joelho, cotovelo
Espremida atrás da porta
Observo
Irmãzinha querida
Choro quente desgarrado
Me vinguei, me vinguei, me vinguei
Ninguém me vê
Ninguém a vê
Segurando corpo de boneca lambida.

Conluio

Não vou me adaptar
Cubro a cabeça com lençol
Meus pés condenados se desequilibram
Em convés cambaleante
Mistério da derrota
Gosto azul marinho na língua
Gasto pensamentos de encaixe
Do quebra-cabeça em alto-mar
Sofro
ânsias de revelação
Cubro a cabeça com lençol
É mentira
Só pode ser mentira
Do seu astrolábio enganado
De navegação antiga
Minha perna formiga
Não aguentarei mais um dia
Desenganado, enganado
Fobia
Vejo a trama
Esboço com o dedo no chão do convés sujo
Seu sorriso de gosto azul marinho.

Munique Duarte, nasceu e vive em Santos Dumont-MG. É jornalista responsável pelas publicações dos sindicatos dos carteiros, dos vigilantes e dos auxiliares de ensino privado de Juiz de Fora-MG. Bloga em http://textosimperdoaveis.blogspot.com. Participa da obra Escritos de Amor, lançada pela Casa do Novo Autor Editora. Já colaborou n'O BULE, Sobrecapa Literal, Escrita Criativa (Portugal), Revista Diversos Afins, Jornal Opção e Jornal Relevo. Admiradora de Dalton Trevisan, Lygia Fagundes Telles e Ferreira Gullar.


Por Cristina Bastos

I

Serenada

Se eu não voltar

será porque me lembrei

do tanto que já voltei

será por estar serena

e não precisar mais

me dizer

a palavra nada me dirá

não me direi

se eu não voltar

serenei.

II

...

No sino

da minha porta

um louco lúcido

tocou delírios

olhos fechados

ouvi som de hinos

como poeta

adormeci serena

no toque

do canto do seu riso.

III

...

O temporal

terá seu tempo

virá

mares amenos

sei dos riscos

dos meus nados

nada em mim

o imperfeito.

IV

...

Tenho tudo,

uma flauta

o silencio

esse riso.

Pela estrada

vou dançando

pelo meio,

...não por simplismo

ou comodismo...

extremos batem em vigas

portas sem saídas.

Pelo meio

não busco,

respiro

e vai me achando

o que preciso.

V

...

Há tudo

em um pedaço

de vidro

brilho

e

corte

luz

para outros

desafios.

VI

...

Conheci abismos

e no quase desistir

o ofício me gritou

insista!

na montanha russa

que viraram os dias

de ponta cabeça

olhei pés que prosseguiam

e por amor

aos loucos que insistem

voltei da morte

e vou versando a vida.

Cristina Bastos nasceu em Uberlândia/MG, em 1960. Em 1972 foi para Brasília. Formada em Educação Artística e Filosofia. Trabalhou alguns anos, como arte-terapeuta com portadores de necessidades especiais. Participou de diversas exposições fotográficas com o grupo “Ladrões de Alma”. Escreve desde 1971 e tem poemas publicados em diversas antologias, entre elas a Antologia Poética Hélio Pinto Ferreira, volumes X, XI, XII. Em 1992 publicou seu primeiro livro individual: Decerto o Deserto, pela editora Iluminuras. Participou, em 1997, de Intimidades Transvistas (editora Escrituras), coletânea de poemas inspirados na obra do artista plástico Valdir Rocha. Participou da revista espanhola El Perro Blanco, com poemas traduzidos. Em 2002 publicou seu segundo livro individual, Teia, pela editora Massao Ono. Atualmente vive em Brasília, onde fotografa e trabalha em seu mais recente livro.