17 de jul. de 2011

O perfume

(Ilustração: Gabriela Pas)


Por Claudio Parreira

Eu passava horas assistindo pelo buraco da fechadura a mamãe e seu complexo ritual pós-banho: os cremes infinitos, os frascos coloridos e alongados, os malditos sprays de perfume. Ela era muito dedicada a isso: mulher vaidosa, não economizava nos batons e brilhos, os cabelos sedosos e castanhos que nunca mais encontrei em nenhuma outra, o corpo bonito que me deixava de pau duro sem que nem mesmo eu me desse conta do por que. Era um desperdício aquilo tudo, eu soube mais tarde, porque mamãe não se arrumava daquela maneira para papai, era sempre para outros homens, nunca ele, que era flácido e ausente o tempo inteiro, uma lesma que passava o pouco tempo em casa sentado diante da TV como se a vida se resumisse àquilo, um idiota cuja única virtude era o não estar de corpo presente.

Aí a origem da repulsa: os perfumes representavam o amor que minha mãe me negava. Também não era para mim que ela se perfumava, era para os outros, para os infinitos homens que ela mantinha em fila como cães obedientes e ofegantes, homens que invadiam minha casa a qualquer hora mesmo com a presença de papai, que apenas levantava os olhos bovinos e não falava nada, um corno molenga que fazia da poltrona o seu castelo.

Eu cresci, portanto, odiando perfumes e mamãe, moleza e papai. Se eu pudesse — e muitas vezes avaliei essa possibilidade — eliminaria da face da terra tudo isso pela ordem: perfumes mamãe moleza e papai. Mas não, a prudência me servia de âncora, um molenga também eu, puta merda!

Frustração. Eu me sentia amarrado, incapaz de estabelecer contato com o mundo e seus milhares de perfumes: as ruas eram um suplício, o mais leve sinal de uma mísera colônia me nauseava, a imagem da minha mãe, vaca perfumada; o meu pai, boi acomodado ruminando vaziez.

Por isso, já na idade de namorar, eu fugia das mulheres, e elas tinham razão quando me chamavam de frouxo: era o exemplo que eu tinha do meu pai, e não me aproximava não porque não as desejasse, mas o perfume delas sempre chegava na frente, um soco na cara, que eu recebia resignado feito uma criança indefesa. Bunda mole, a voz em meu interior, bunda mole do caralho!

***

Não sei dizer exatamente como a ideia surgiu, mas ela veio clara como se soprada em meu ouvido pelo diabo: se não quer perfume, livre-se dele!

Nesse mesmo instante meu pau endureceu como nunca antes na vida — e foram tantas as punhetas naquele dia que quando dei por mim jazia inerte no chão da sala, um mar de porra à minha volta, o paraíso prometido pulsando forte na minha mão.

Desse dia em diante passei a frequentar cada vez mais o buraco da fechadura atrás do qual minha mãe repetia o seu ritual. Tapava o nariz com a mão esquerda (eu tinha a sensação de que o perfume dela me atingia tanto quanto a imagem do seu corpo), e com a direita me masturbava freneticamente. Limpava a sujeira no início, mas depois fui deixando isso de lado, e o jorro que escorria pela porta era um prazer a mais. A cada dia que passava aquele grude secava e, consequentemente, fedia. Ahhhhhh!

O meu pai às vezes me flagrava em plena ação, mas eu não diminuía em nada a minha atividade — e nem ele protestava. Eu era apenas mais um homem entre tantos outros, seu filho, mas ainda assim. Um filho que punheteava inspirado na própria mãe.

***

Com o passar do tempo a punheta foi perdendo um pouco do seu encanto. Era a minha brincadeira, o meu passatempo predileto — mas já considerava aquilo insuficiente. Precisava mesmo explorar o corpo de uma mulher, sua boceta, apertar a bunda, meter o pau em seus buracos. Fuder!

Mas havia um problema, é claro, o Perfume! Como me livrar daquilo, como me aproximar de uma mulher sem cheiro, por menor que fosse?

Abandonei o buraco da fechadura e passei a explorar as redondezas em busca de uma mulher. Não tinha lá muitas referências além da minha mãe, confesso, e todas as que vi me pareciam um tanto sem graça, fora do padrão de beleza ao qual me acostumara desde cedo. Mas eram mulheres, porra!, e eu precisava disso. Meu corpo precisava. Apesar do perfume.

***

Três dias depois de iniciada a minha busca me deparei com uma possível candidata. Na verdade, ela se deparou comigo: o perfume vagabundo chegou na frente, nauseante, e ela mesma não era muito diferente: grosseira, mal vestida, o reboco à guisa de maquiagem cobrindo todo o seu rosto.

— Vam’fudê, bem? — foi o que ela disse.

Eu olhei para os lados, para trás. Não queria testemunhas — e o perfume da puta me turvando os pensamentos.

— Ok — eu disse, surpreso com a rapidez da minha decisão. — Mas você tem que tirar esse perfume. Não aguento isso.

— O criente manda — ela respondeu, a cara de nada. — Pagano bem, te dô até o cu.

Imaginei mamãe falando as mesmas palavras pra mim e meu pau endureceu até latejar. Ao mesmo tempo, meus olhos seguiam a bunda da mulher, que me conduzia por vielas escuras e esburacadas, em direção ao seu quarto. Era feia mesmo, a sua bunda, mas isso não era importante. Toda ela era feia, mas seria a minha estréia, a primeira que receberia minha porra de verdade.

— Cê já ta nu ponto, bebê — ela me disse quando chegamos à porta da casa, um barraco na verdade.

A primeira coisa que senti no interior do lugar foi um cheiro de azedo, algo parecido à cachaça velha. Isso me excitou mais ainda, estrelas explodiram em meus olhos!

— Vam’fudê, vam — ela repetiu, já sentada na beirinha de um beliche caindo aos pedaços.

— Tira o perfume! — ordenei. — tira o perfume!

A mulher arregalou os olhos, mas não perdeu a oportunidade:

— Se quisé sem chero fica mais caro.

— Tira o perfume!

Ela se levantou e desapareceu pela porta; voltou cinco minutos depois, o rosto limpo da maquiagem, os cabelos molhados.

— Limpinha procê — ela disse.

Eu sorri, trêmulo, o pau já pra fora das calças. Quando me aproximei, tomei um choque: a filadaputa cheirava a sabonete!!! Perfume de sabonete!

Nem percebi quando dei a primeira porrada. Ela gemeu e caiu, eu continuei batendo, batendo, chutando, até que ela se transformou num pacote mole e silencioso, vermelho de sangue. Misturado ao sangue, porém, o maldito cheiro de sabonete ainda se fazia sentir. Eu precisava acabar com aquilo.

Dei uma rápida olhada pelo barraco e encontrei uma garrafa de álcool. A voz soprou mais uma vez no meu ouvido: se não quer perfume, livre-se dele!

Foi o que eu fiz: ensopei o corpo com o líquido e taquei fogo. Ela nem gemeu. E pela primeira vez na vida senti um perfume que realmente me agradou: o de carne queimada.

Ali mesmo, com o corpo ainda em chamas à minha frente, mandei uma bronha inigualável. Gozei uma centena de furacões e estrelas, a porra se consumindo no fogo que reduzia a cinzas aquele corpo agora purificado de todo e qualquer perfume mundano. Exausto, tombei de joelhos diante da minha obra, o pau ainda na mão, e ri e ri e ri, e chorei também, certo de que aquele era o único caminho possível para o prazer. O meu prazer.

***

No dia seguinte concluí que jamais seria capaz de possuir uma mulher, mas isso já não importava: observando mamãe pelo buraco da fechadura, uma garrafa de álcool na mão direita, me dei conta finalmente de que as coisas nunca mais seriam as mesmas naquela casa.