Por Keyme Lourenço
Honeyland
é um filme do gênero documentário ficcional, gravado no norte da Macedônia por
três anos. A obra registra enquanto ficcionaliza a história de vida de
moradores que vivem praticamente isolados em vilarejos em ruínas. A relação dos
seres humanos com os seres não-humanos é o principal ponto tocado pela
história, que registra como os contratos entre seres são construídos e
cumpridos, e também os riscos que suas quebras podem ocasionar para a vida de
todos.
Os dois codiretores[1]
do filme realizaram uma pesquisa para construção de um documentário ambiental e
encontraram uma moradora quase solitária e decidiram registrar sua vida e seu
modo de vida. A equipe do filme passou três anos no local para os registros. O
filme ganhou o prêmio Sundance World Cinema e é o primeiro filme da história
indicado ao Oscar de melhor documentário e melhor filme estrangeiro
simultaneamente.
Tudo acontece graças a
Hatidze, uma personagem real que mantém cuidadosamente colmeias de abelhas,
coexistindo com elas, com a mãe, com o meio rural, com as montanhas e com a
vegetação. Hatidze e a mãe vivem em uma pequena casa sem água corrente ou
eletricidade, em uma aldeia aparentemente abandonada. Em visitas episódicas à
maior cidade da região, Skopje, se constituem os raros momentos em que ela vê
outras pessoas, pega ônibus, observa cabelo punk,
taxis, usa faixa de pedestre, escuta buzinaço e sirene e vai à feira. Seus
olhos brilham entre as barraquinhas, pode vender o mel que extrai e compra com
o dinheiro da venda coisas para a sobrevivência e consumo, como tinta de
cabelo, leque preto e banana.
De volta ao campo, a calmaria
de Hatidze tem uma pausa com a chegada de novos vizinhos. Eles parecem ser
nômades, e durante a sua chegada e instalação, outros agenciamentos para aquele
território são desencadeados em busca de novas expressões para o próprio
território. É um reterritorializar no próprio processo de desterritorialização.
Os nômades são aqueles que se
espalham, aqueles que se distribuem no próprio ato de colocar-se no mundo. A
distribuição nômade é rizomática. Os modos como percorrem os pontos num mapa
não são prévios e transcendentes, mas se fazem na própria ação de vaguear. A
territorialização dos vizinhos na terra, as intensidades se definindo através
de certas matérias de expressão e o nascimento de mundos nesse processo provoca
em Hatidze uma desterritorialização da sua relação com a terra: os territórios
vão perdendo forças de encantamento, há mundos que se acabam e partículas de
afeto são expatriadas, sem forma e sem rumo.

E é justamente por sentirmos
tão facilmente a simplicidade da personagem que vemos um contraste em Honeyland
tão duro e denso. Apesar de se tratar de um documentário, os dois diretores
delineiam o filme com uma narrativa poética, que nos faz desperceber, durante a
cinecartografia, que se trata de um documentário de cenas reais. A presença dos
diretores e das filmadoras é discreta e neutra, não percebida: não há sombras
da câmera, nem de quem grava, invadindo as imagens; os personagens nunca
conversam com a câmera ou olham para ela.
De que maneira quem filma observa seus personagens e o seu
local? De perto, adentrando a intimidade, possivelmente interferindo no
cotidiano e interagindo com o espaço filmado? Mesmo em momentos mais
tensos, como quando o patrão propõe ao pai da família tirar mais mel do que
deve, a câmera e a presença dos diretores não interferem no tom do pedido. Sem
se impor, ou até mesmo expor, como quando a mãe mentiu dizendo à Hatidze, logo
após perder todas suas abelhas, que o filho mais velho extraiu mais do que
devia do mel, sendo que quem o fez foi o pai.
De longe, como se não fosse percebido, e quem sabe até
espiando? Fazendo-se presente ou
buscando a invisibilidade? Com a quantidade de materiais coletados em três anos de
captura, eles poderiam construir e criar infinitas narrativas sobre a vida de
Hatidze, das abelhas, da mãe, das crianças, das rochas, das colmeias, das
vacas, dos ferrões.
O tempo é algo integrante do
cinema, não apenas no sentido da duração do tempo dos takes, mas no sentido de espera, no sentido da captura das imagens,
da filmagem. As fronteiras entre os territórios, dos personagens, dos diretores
e dos seres que atuam no filme, vão se desfazendo nesses entres: elas se
ultrapassam, se atravessam, delimitam e redelimitam os limites dos territórios,
vão fugindo umas das outras.
Estes questionamentos se
tornam pertinentes durante os caminhos percorridos na cinecartografia de Honeyland,
há algo muito singular na obra, fertilizada pela questão do posicionamento do
olhar. A câmera segue a personagem por penhascos íngremes em plano médio,
quando ela sai em busca das colmeias ou de lenha no campo. Também se faz
presente dentro da casa de pedra em primeiro plano e ao lado da cama da mãe
doente, ou captando os olhares suspeitos da personagem, em primeiríssimo plano.
Seja de dia, seja de noite, tanto no vilarejo em ruínas, quanto na cidade.
[1] A direção do documentário Honeyland é de Tamara Kotevska
e Ljubomir Stefanov. Este é o segundo trabalho em conjunto entre os diretores,
que captaram as filmagens do filme durante três anos, atingindo um total de 400
horas de filmagem. O filme foi originalmente planejado como um
curta-documentário financiado pelo governo Macedônico, com o objetivo de ser um
relatório sobre o rio Bregalnica e a preservação ambiental da região
circundante no município de Lozovo, ao Norte da Macedônia. Mas o foco da obra
mudou quando os diretores conheceram Hatidže, mudando assim a ideia, reunindo
outros investimentos e apoios para a finalização como longa-metragem. Uma
entrevista online com os dois diretores e Hatidze comentando sobre o processo
de criação do filme está disponível em: https://www.slobodenpecat.mk/medena-zemja-snimaneto-na-filmot-gi-promeni-nashite-zhivoti/.