17 de out. de 2026

Os luminosos contos de ‘A bala dos desarmados’, de Francisco de Morais Mendes

 

Por Krishnamurti Góes dos Anjos 

Sabemos que o gênero literário conhecido como conto é fundamentalmente um texto ficcional curto em que um narrador conta uma história desenvolvida em torno de um enredo – uma situação que dá origem aos acontecimentos da narrativa, levando a desfechos impactantes que, via de regra, costumam ser súbitos e surpreendentes, deixando uma forte impressão no leitor, posto que sempre revelam algo além no capítulo do “aprendizado humano”. 

Nos últimos tempos de frenesi informativo e de forte apelo às imagens impactantes, o gênero tem passado por sucessivas reduções físicas que nem sempre se traduzem em qualidade. Antes empacam em uma espécie de esvaziamento da profundidade narrativa, propensos à espetacularização da concisão e da transformação da literatura em um produto de consumo rápido. 

Muitos autores, talvez por conta de um mimetismo de fácil assimilação, têm reduzido o gênero a poucas linhas ou palavras e, ao reduzirem demasiadamente sua estrutura física, abandonam a complexidade psicológica das personagens e o desenvolvimento de um enredo, resultando em diminuto resumo de frases de efeito, tiradas espirituosas ou simples motes que funcionam mais como charadas do que como literatura densa. Uma tal busca obsessiva pela brevidade extrema aproxima a literatura da lógica da publicidade e das redes sociais que priorizam o impacto instantâneo (o alarmismo, o engajamento ou a espetacularização) em detrimento de uma fruição estética que sugira sentidos férteis e mais prolongados, e da construção de um universo ficcional consistente. Alguns desses textos extremamente curtos se esquivam do trabalho literário propriamente dito, e delegam aos leitores a responsabilidade de inventar uma história que o autor sequer chegou a estruturar. 

Por outro lado, há quem defenda que a microficção exige do escritor o domínio cirúrgico da linguagem, onde cada palavra carrega peso poético e elíptico. Mas é justamente aí que entra o grande problema. O tal domínio cirúrgico da linguagem não se alcança através de “residências literárias”, cursos de “escrita criativa” ou outros cursos “on-line” de todo tipo que proliferam a torto e a direito. Antes, e bem mais eficiente, é a intensa e constante leitura e, ainda, a consequente reflexão das grandes obras da literatura universal e também, óbvio, de excelentes autores contemporâneos que, para além do notório conhecimento literário, possuem pitadinhas de talento, palavra essa, aliás, em vias de desaparecer, porque vamos entendendo que em matéria de literatura chegamos até aqui graças aos computadores, à Internet e – agora – a tal Inteligência Artificial que nos tornará super-homens da ficção. 

Em todos esses anos em que venho arduamente – porque de fato, também não é fácil — me dedicando ao que muito modestamente chamo de crítica literária, tenho visto dezenas, centenas de escritores de um livro só. Porque, quando sentem o que a verdadeira literatura deles exige, desistem para nunca mais. Escrever um livro, ou mesmo ganhar um ou outro concurso literário, positivamente não faz do sujeito um grande escritor. Aí outro equívoco do mundo literário. A luta com o texto elaborado e trabalhado com afinco, e que nos apresente a tal condição humana com suas quedas, ascensões e aprendizados é trabalho que consome muito, muito tempo e, mais ainda, esforço do autor. 

A razão desta resenha é uma coletânea de contos, o livraço A bala dos desarmados (Editora Sinete), do escritor e jornalista mineiro Francisco de Morais Mendes, que venceu o Prêmio da Academia Mineira de Letras de 2026. De saída. fiquemos sabedores que o senhor Mendes (mais um dos grandes talentos desse país que poucos conhecem), também já foi contemplado com oito prêmios literários, entre eles o Prêmio Minas de Cultura, do governo do Estado, o Cidade de Belo Horizonte, da Prefeitura Municipal, e o Prêmio Autor 2018, em Lisboa. Não é pouco. 

Embora não seja autor de volumosa obra, a qualidade autoral é inegável, conforme veremos, partindo justamente do tipo e extensão dos contos que escreve. São peças ficcionais de estrutura tradicional. Textos mais longos e, consequentemente, bem estudados e estruturados que concorrem com a vida em inventividade e, com tal objetivo, o autor manipula situações refletindo ou interpretando a matéria-prima: a personagem, seu meio e situação exposta. O conflito latente, em sua obra, sempre cria verossímeis atmosferas ficcionais em busca da construção de um universo ficcional consistente. O autor em suas criações não sonega o núcleo ficcional, que por vezes escamoteia no início para, ao final, criar o efeito de suspense, de mistério, de solidão ou abandono – ou que outro final pretenda sugerir. Exímio na arte de entrelaçar as pontas, de desenvolver ficcionalmente o que em princípio fica insinuado, segue propondo mistérios de uma situação invulgar que, por sua vez, expõe outros mistérios, os das personalidades de suas criaturas.

No conto “Ar”, as metáforas e símbolos saltam à vista. A protagonista hesita em destinar uma carta denúncia que escreve para seu tio ou sua família inteira (?). Denúncia de atitudes eleitoreiras que o tio havia tomado, e que resultaram na morte do próprio irmão, pai da protagonista. Cria-se um suspense entre a dúvida cruel de enviar a carta denúncia/acusação ao tio e o estado de espírito da personagem que depois do assassinato do pai, tornou-se presa de uma sensação asfixiante oscilando entre a falta de ar pela dor do assassinato do pai, conjugada com o mau cheiro terrível de um país que emerge das eleições cheirando a animal morto, apodrecido, largado numa poça de água suja. O que nos lembra uma situação assim, muito parecida com a que vivemos num passado recente, no qual faltou oxigênio para os doentes da pandemia de Covid nos hospitais. Falta de ar. Perdura no “ar” um certo sentido de “república das bananas”, com assassinatos políticos, corrupções, mentiras, calúnias e toda a sorte de podres poderes. A falta de ar nesse texto não é mera metáfora... E pior, dados os últimos acontecimentos, a amplificação do horror ameaça se repetir nesse país que se transforma a cada dia na terra das polarizações imbecis. 

Já em “Hospedes”, o leitor se depara com uma situação surreal. Um homem em viagem com a esposa na Polônia sai de um apartamento para jogar o lixo em uma lixeira. Nesse ínterim é confundido com o amante de uma mulher casada. O marido traído tem certeza tratar-se do amante e esfaqueia o sujeito bem na hora que depositava o lixo na lixeira. Temos nessa narrativa uma das especialidades do autor. A proposta de suspense que vai sendo controlada habilmente de forma a provocar no leitor vivo interesse pela sorte final do homem inocente. Um verdadeiro primor na arte de provocar expectativa, tensão, ansiedade e incerteza. Em contos como “Jardim das plantas” e “Corredores”, há inclinações em direção ao fantástico, embora o autor não ate deliberadamente as pontas do real e do suprarreal, mas cria ficções que espelham contingências humanas. Certamente não se poderá encontrar explicações plausíveis que satisfaçam e aquietem inteligências metódicas... No conto “Corredores” a leitura inicial deixa dúvidas, cria uma atmosfera ficcional rarefeita e, apesar disso, sugere e inquieta. Um texto provocadoramente ambíguo, assim como “A caminho do grande espetáculo”, um primor de inventividade que tanto nos diz da distopia que o mundo hoje vivencia. 

A verdade que os textos citados acima buscam, não depende necessariamente da lógica do acontecimento relatado e, sim, de uma veracidade interior, subjetiva, uma verdade artística plasmada pela personalidade que tanto se deixa influir por fatores extrínsecos, quanto alterna a interpretação da realidade. A partir desse instante, o conto alcança com recursos próprios, à confluência do ficcionismo em geral. Já em “Um olhar uma foto”, de viés realista, assistimos à recuperação de um momento histórico situado na Segunda Guerra Mundial, através de uma fotografia em uma exposição dos flagelos da guerra que flagra o exato momento em que uma garota é socorrida do que se supõe ser um estupro. A descrição do horror, da intolerância e da opressão que os visitantes sentem ao visitar a exposição e os efeitos que se gravam em seus espíritos é pungente.  

Mas Francisco de Morais se notabiliza também quando se transforma em intérprete de pequenos mundos da individualidade, varridos por situações aflitivas. Alguns de seus contos nascem, por certo, das profundezas da imaginação e da intuição, e do contato prolongado com o fascinante espetáculo da existência. Conseguem aliar à tal característica, a maravilhosa faculdade de observação precisa. Seus temas prediletos parecem ser os dramas, as comédias e tragédias e, porventura, as tragicomédias da personalidade, em que ressaltam conflitos inerentes à condição humana, outras vezes ditados por circunstâncias adversas. Criada a personagem no cenário que lhe cabe, vem o conflito, a situação, a “fatia de vida”, porque o contista busca sempre um veio ficcional, por mais tênue que este seja e lhe segue o curso, na sucessão dos naturais desdobramentos. Cria-se, dessa forma, a ficção da melhor qualidade. 

Já em “Feliz aniversário, Wainer”, um homem hospitalizado traz consigo a lembrança dolorosa que o remorso não deixa esquecer: um episódio do passado que assombra o personagem ainda no presente e que o ficcionista explora no flagrante em que ele se consulta, se olha e se flagela. Um ato de vingança praticado há décadas. E tanto pior para sua consciência quanto se sabe que foi perpetrada contra um homem praticamente cego e, ainda por cima, embriagado. O terrível drama de consciência é o ponto alto do texto. Até que ponto terá valido a pena a vendetta? Dois outros contos merecem destaque: “Estado bruto” e “Chuva”. Em “Chuva” um homem recebe a visita inesperada de uma mulher num dia chuvoso. Alguém com quem teve uma relação amorosa, seguida de um rompimento que, pressupomos, não foi consensual. A mulher cria coragem e vai procurá-lo, mas está transtornada, em frangalhos, narcotizada: “É, vim aqui algumas vezes. Parei na porta, sem coragem de bater” (...) “Não vale a pena — ela disse. Não vale a pena porque, porque você é um filho da puta. Você não devia ter me deixado.” O contista segue tecendo as emoções particulares que ocorreram no passado entre os dois, sem recorrer a maniqueísmos, por meio dos acontecimentos que captam a situação existencial da mulher naquele momento de extrema fragilidade. Aí o testemunho daquelas vidas que se desencontraram no amor. Em evidência a verdade da vida, um vívido testemunho de um desencontro amoroso e suas consequências na imaginação criadora.  

Francisco de Morais Mendes, em suma, maneja a linguagem com uma competência tal, que a transforma em instrumento de potente verticalização sugestiva. Aplaina arestas, desbasta o acessório e acaba por impor aquilo que, a seu ver, é o núcleo e constitui a essência, o cerne do instante revelador. Os contos de “A bala dos desarmados”, positivamente, são de alto calibre, concebidos por um ficcionista de extrema habilidade, perante os quais cabe apenas a atitude do mais franco aplauso. São contos de mestre. 

 

Livro: “A bala dos desarmados”

Contos de Francisco de Morais Mendes

Editora Sinete – São Paulo/SP

2025

192 p.

ISBN 978-65-83126-19-1

 

Link para compra e pronto envio:  

https://www.sineteeditora.com.br/a-bala-dos-desarmados 

Instagram do autor: @franciscodemoraismendes 

 

Krishnamurti Góes dos Anjos é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor, entre outros, de O Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Embriagado Intelecto e outros contos, À flor da pele (contos) e Destinos que se cruzam (romance). Possui textos publicados em revistas no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. O Touro do rebanho (Editora Chiado, romance histórico) obteve o primeiro lugar no Prêmio José de Alencar (UBE/RJ) em 2014. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea, colaborando em diversos jornais, revistas e sites literários.