30 de mar. de 2026

Vida de concreto

 

Por Ricardo Novais 

Capítulo I — Em que não se ergue estátua alguma 

Não me peça, leitor, que lhe apresente o homem mais feliz do mundo como se ele fosse monumento em praça pública. Não é. O homem mais feliz do mundo não tem pedestal; tem boleto. Não desfila em carro aberto; aperta-se no metrô com demais orelhas paulistanas. 

Eduardo Sampaio. Nome comum, desses que não despertam inveja nem curiosidade. Era analista, profissão adequada para quem trabalha muito e manda pouco. A carreira ia em andamento; andando devagar, tropeçando em planilhas e promessas. 

Capítulo II — Do churrasquinho e outras filosofias 

Numa manhã, atravessava a Vergueiro com uma mochila discreta e um paletó comprado em promoção. O cabelo estava aparado, por economia; a barba feita, por hábito; o sorriso, por educação. Um vendedor de churrasquinho lhe ofereceu um lanche. 

__ Vai um churrasquinho aí, chefe? Tá caprichado, hein! 

Eduardo olhou aquela carne, quase eterna, e recusou, meio contido, e por um instante conversaram. Eduardo perguntou, por brincadeira, se o homem era feliz. O vendedor respondeu com uma sabedoria que não se aprende em cadeiras acadêmicas. 

__ Olha, meu! Felicidade é apenas vender tudo e ir embora mais cedo. 

Eduardo atravessou a rua levando a frase consigo, como quem leva um embrulho leve, mas incômodo. 

Capítulo III — A multidão e o vazio 

No metrô, a cidade o engoliu. Um homem pregava salvação; uma moça, de fones, tentava desaparecer. Ela comentou, como se falasse ao mundo inteiro: Cara, vivemos correndo para chegar sempre atrasados. 

Eduardo admitiu que sentia o mesmo. A moça, apesar dos fones, escutou e explicou que todos fingem estar bem, porque, se não fingirem, não conseguem sequer descer na estação certa. Não era filosofia, era sobrevivência. 

Ela se foi. Deixou no ar uma verdade que não cabia em anúncios nem em bilhetes únicos. 

Capítulo IV — Da tranquilidade dos resignados 

O dia seguiu. Chegou ao prédio onde trabalhava. Concreto, vidro, aço e silêncio refrigerado. Na recepção, a moça do balcão levantou os olhos. 

__ Bom dia, doutor Eduardo! 

“Doutor”, leitor. São Paulo distribui esse título como distribui buzinas: sem critério e com convicção. 

__ Bom dia, Fabi! 

Almoçou sozinho, ouvindo colegas sonharem viagens distantes, enquanto mastigava expectativas pequenas. 

Capítulo V — Do cadáver invisível 

À noite, voltou ao apartamento alugado, provisório como a vida. Abriu o celular, fechou. Olhou para o teto e pensou, sem poesia: “É isso?”. 

Não era tragédia. Era pior: rotina. 

Percebeu, então, que carregava nas costas o cadáver da versão mais brilhante de si mesmo, aquela que imaginou ser e ficou estacionada em algum sonho antigo. 

E murmurou, quase como insulto: 

__ Eduardo, você é o homem mais feliz do mundo! 

A frase soou absurda. Mas talvez fosse verdade. Porque o homem mais feliz do mundo, leitor, não é o que tem tudo. É o que tem o suficiente para não reclamar em voz alta…E pouco demais para se sentir completo. 

Já adivinhou quem é? Ora. Esse homem é Eduardo. Esse homem é você. 

 

Ricardo Novais nasceu em São Paulo. Costuma dizer que só escreve porque escrever é coisa infinita, ainda que seja somente rótulo. Rótulos podem ser divertidos, superficiais, é verdade, mas bem divertidos. É autor do romance O Boêmio e dos livros de contos Trem noturno e Perfumes da pátria. Acredita que a vida e a morte são como um gol aos 45’ do segundo tempo; o último gole é sempre a saideira.