“Sem artigo, só achismo” é uma seção da Revista O Bule que valoriza a voz espontânea dos leitores! Sem análises técnicas e acadêmicas, aqui leitores vorazes e experientes emitem suas impressões, sensações e dão a opinião sincera sobre os livros que leram.
Para estrear nesta seção, a leitora Drielly Passos nos apresenta sua opinião e sua jornada de leitura do livro “Lamentos da Alvorada Renegada”, uma obra brasileira de fantasia em dois volumes.
Lamentos da Alvorada Renegada
Autor: Bruno Ricetti
País: Brasil
Disponível em: epub e impresso
Volume 1: 470 páginas.
Volume 2: 790 páginas
O livro não entrega apenas aventuras, mas explora perdas, escolhas,
amadurecimento forçado e a força do coletivo. A trama acompanha jovens que
vivem em uma segurança ilusória até que o chamado do Lume vira tudo do avesso.
Esses jovens são os “Arautos”, e não são apenas jovens “escolhidos” por
destino, são adolescentes atravessados pelo caos da vida, moldados pela dor e
pelo amor, aprendendo que o poder (os Lamentos) vem junto com responsabilidade
e cicatrizes.
A ambientação dos espaços de Auren e Korvas, as descrições do amanhecer
e do cotidiano, não são meros cenários: elas refletem estados emocionais,
antecipam o luto, a dor, a tensão que está por vir.
“Os campos de Eldren, nos confins ocidentais de Auren, brilhavam sob um sol que ainda não conhecia traição. Colinas verdejantes salpicadas de flores amarelas eram cortadas por riachos que gorgolejavam contra pedras lisas, polidas pelo tempo. O céu era um manto azul-claro, manchado apenas por fiapos de nuvens que deslizavam lentas, e o ar trazia o perfume doce da erva recém-cortada, misturado ao cheiro terroso das lavouras que cercavam a vila.
Era uma terra generosa, onde o trigo crescia alto e os pomares carregavam frutas tão pesadas que os galhos se curvavam até o chão. Mas mesmo ali, entre os montes que se erguiam suaves ao longe, o vento carregava sussurros, um murmúrio baixo, quase um aviso, que roçava as folhas das faias e se perdia no zumbido das abelhas”.
O chamado da personagem Aerie é sutil e profundo; não é heroísmo por escolha, mas um destino chamando, e sentimos isso junto com ela a cada frase. Cada batalha, cada lamento e cada perda reforça que a luta é interna e externa, e que o amor, a música e a memória são armas tão poderosas quanto qualquer espada.
O que mais me marcou foi como a história consegue
ser brutal e bela ao mesmo tempo. A dor, a morte, a injustiça, mas também a
música, a luz e a esperança tímida, sempre acesa em meio às cinzas. É
impossível não se conectar, não sentir as lágrimas, o suor, o sopro de vida ou
de desespero dos personagens. O que diferencia essa obra é como o autor, Bruno
Ricetti, trata a magia que traz o poder que nasce da arte e da melodia, mas que
também tem um custo físico e emocional.
“A última palavra saiu num soluço, e ela enterrou o rosto
nos braços.
O poder dos Lamentos, que Kael e Liora liberam, não é apenas uma habilidade mágica, é uma explosão de dor, medo e desespero, mas também de esperança. Eles salvam suas vidas e de outros, mas carregam o peso de tudo o que destruíram pelo caminho, e aquilo fica com eles, ecoando nas almas, como o próprio nome do livro sugere. “Lamentos da Alvorada Renegada” não poderia ser mais perfeito! O lamento é literal e emocional.
O volume 1 finaliza com feridas abertas, perdas
sentidas e esperança incerta, deixando-nos com um gosto de quero mais e com o
coração acelerado. Um livro que mostra que fantasia também pode ser profunda,
dolorosa, real e transformadora.
“Seu mundo inteiro havia sido destruído em segundos. Não havia mais o pai forte para carregá-lo nos ombros, rindo enquanto o erguia ao céu, nem a mãe amorosa para tratar suas feridas com suas canções suaves que pareciam acariciar a alma. Ele não sabia se alguém em Venth ainda respirava, e as lágrimas que escorriam por seu rosto embaçavam a visão tornando a noite ainda mais densa, um véu que sufocava qualquer esperança”.
Volume 2 - O Domínio da Sombra
Se o primeiro volume abriu, para mim, as portas do
gênero, o segundo, “Domínio da sombra”, não pediu licença: entrou, virou a
mesa e deixou claro que esse universo de fantasia chegou para ficar. A leitura
me proporcionou um misto de exaustão emocional e admiração. É uma obra que
confia no leitor e não tem medo de ser densa e provocativa.
“O sangue não esquece seu caminho” e “A distância é
um pensamento” não são só ameaças físicas, são declarações sobre como o inimigo
transcende a força bruta. Para os Arautos, isso significa que lutar apenas com
armas ou construções (muralhas, guardas, máquinas) não será suficiente. A
batalha exige estratégia, percepção e inteligência, quase como um xadrez mental
ou guerra psicológica.
Nessa continuação, percebemos que o verdadeiro
horror não reside apenas em monstros ou máquinas, mas na lógica que sustenta o
poder. O antagonismo nessa fase é assustador, justamente porque governa pela
narrativa, pela conveniência e pelo conforto oferecido às massas.
Nesse cenário, a memória vira uma ameaça. Lembrar
exige uma responsabilidade ética que o sistema não quer permitir. É impossível
não traçar paralelos com o nosso mundo contemporâneo, em que discursos vendem
estabilidade como valor absoluto enquanto tentam neutralizar o pensamento
crítico.
A fala de Lisa é uma metáfora poderosa sobre a
passividade das massas. Ela identifica que o povo de Auren não está sendo
dominado apenas pela força, mas pelo conforto. Em um mundo exausto por guerras
e invernos eternos, a promessa de uma vida sem esforço oferecida pelas máquinas
é tentadora demais. A comparação com as ovelhas sendo engordadas é brilhante. O
"pastor" provê o alimento e o descanso, mas o objetivo é o abate. A
submissão é vendida como "descanso", mascarando a perda da liberdade.
No segundo volume, os personagens ganham uma
profundidade psicológica rara. Liora me atravessou em seus dilemas sobre o
tempo e o que não pode ser devolvido. Já Nero traz um alívio agridoce, que nos
faz questionar: o que somos quando não conseguimos mais lembrar? São figuras
que nos despertam desde risadas até lágrimas de pura empatia.
O protagonista Kael, por sua vez, é o herói que nos
tira do sério. Impulsivo e falho, ele erra e sofre as consequências de cada ato
impensado. Mas é essa humanidade que o torna especial. Ele não sai inteiro de
suas batalhas; ele carrega as marcas de quem salva o mundo, mas precisa
aprender a viver com os estilhaços do que restou.
Enquanto no volume 1, vemos uma jornada de
sobrevivência e descoberta, em que o foco está na construção dos protagonistas,
por isso é uma história mais íntima, sobre o despertar de poderes e a fuga do
perigo imediato.
Já no volume 2, tudo é mais político, mais sombrio
e muito mais maduro. Terminei a jornada com o coração acelerado e uma percepção
incômoda: o mal nem sempre vence pela força bruta, mas, muitas vezes, pela
paciência e pela manipulação das verdades.
O que percebemos desse universo é que a magia
(Lume) é uma energia consciente e compartilhada. Diferentemente de outras
fantasias, em que se gesticula ou diz palavras rúnicas, Bruno usa a magia como
expressão artística (música, poesia). Ou seja, nesse universo, a sensibilidade
é uma forma de poder, e os deuses não são figuras distantes e perfeitas em
altares, mas seres que interagem, sofrem julgamentos e dependem de seus
“Arautos”. Existe uma interdependência entre o humano e o divino, que é muito
rara na fantasia tradicional.
Além disso, no segundo volume percebemos que é um mundo que já viveu
apocalipses (como a Guerra das Máquinas) e que a tecnologia e a magia vivem em
uma tensão constante. O universo de Bruno Ricetti sugere que a humanidade está
sempre em um ciclo entre evoluir e se autodestruir, e que a única coisa que
pode quebrar esse ciclo é a memória preservada pelos Lamentos.
Se no primeiro volume somos apresentados ao “sentir” da magia, no
segundo somos confrontados com o “pensar”. O universo de Ricetti nos mostra que
a maior arma de um povo não é sua espada, mas sua capacidade de lembrar de onde
veio. O encerramento deixa perguntas
inquietantes sobre o futuro dos deuses e da humanidade.
“O silêncio após a
batalha não era alívio. Era ausência. O portão estava livre, sim, mas o preço
havia se entranhado em sangue, suor e marcas que não cicatrizariam facilmente.”
A saga de Ricetti prova que a fantasia nacional pode, e deve, ser
profunda, dolorosa, real e, acima de tudo, transformadora.
Drielly Passos
– Leitora assídua desde a infância entre as
estantes da Biblioteca Municipal. Interesso-me por narrativas que tencionam poder,
moralidade e condição humana, comm predileção por terror, suspense, distopias e
fantasia. Graduada em Pedagogia (UFPA) e Matemática (UFTM), neuropedagoga, atua
com atendimento pedagógico para alunos com dificuldade ou transtorno de
aprendizagem.
Nota: os textos desta seção não necessariamente refletem a opinião da Revista O Bule.

