12 de fev. de 2026

Sem artigo, só achismo! #1 - Uma imersão em “Lamentos da Alvorada Renegada”, de Bruno Ricetti

Sem artigo, só achismo” é uma seção da Revista O Bule que valoriza a voz espontânea dos leitores! Sem análises técnicas e acadêmicas, aqui leitores vorazes e experientes emitem suas impressões, sensações e dão a opinião sincera sobre os livros que leram.

Para estrear nesta seção, a leitora Drielly Passos nos apresenta sua opinião e sua jornada de leitura do livro “Lamentos da Alvorada Renegada”, uma obra brasileira de fantasia em dois volumes.

Lamentos da Alvorada Renegada
Autor: Bruno Ricetti
País: Brasil
Disponível em: epub e impresso
Volume 1: 470 páginas.
Volume 2: 790 páginas

 Volume 1 - O despertar da Luz


Nunca imaginei que pudesse devorar quase 800 páginas de fantasia em menos de uma semana. “Lamentos da Alvorada Renegada” trata- se de uma obra de fantasia, que mistura mitologia e filosofia em uma intensidade que faz sentir cada emoção pulsando em você. Chorei, fiquei com raiva, me emocionei, fiquei tensa, confusa… tudo ao mesmo tempo!

O livro não entrega apenas aventuras, mas explora perdas, escolhas, amadurecimento forçado e a força do coletivo. A trama acompanha jovens que vivem em uma segurança ilusória até que o chamado do Lume vira tudo do avesso. Esses jovens são os “Arautos”, e não são apenas jovens “escolhidos” por destino, são adolescentes atravessados pelo caos da vida, moldados pela dor e pelo amor, aprendendo que o poder (os Lamentos) vem junto com responsabilidade e cicatrizes.

A ambientação dos espaços de Auren e Korvas, as descrições do amanhecer e do cotidiano, não são meros cenários: elas refletem estados emocionais, antecipam o luto, a dor, a tensão que está por vir.

“Os campos de Eldren, nos confins ocidentais de Auren, brilhavam sob um sol que ainda não conhecia traição. Colinas verdejantes salpicadas de flores amarelas eram cortadas por riachos que gorgolejavam contra pedras lisas, polidas pelo tempo. O céu era um manto azul-claro, manchado apenas por fiapos de nuvens que deslizavam lentas, e o ar trazia o perfume doce da erva recém-cortada, misturado ao cheiro terroso das lavouras que cercavam a vila.

Era uma terra generosa, onde o trigo crescia alto e os pomares carregavam frutas tão pesadas que os galhos se curvavam até o chão. Mas mesmo ali, entre os montes que se erguiam suaves ao longe, o vento carregava sussurros, um murmúrio baixo, quase um aviso, que roçava as folhas das faias e se perdia no zumbido das abelhas”.

O chamado da personagem Aerie é sutil e profundo; não é heroísmo por escolha, mas um destino chamando, e sentimos isso junto com ela a cada frase. Cada batalha, cada lamento e cada perda reforça que a luta é interna e externa, e que o amor, a música e a memória são armas tão poderosas quanto qualquer espada.

O que mais me marcou foi como a história consegue ser brutal e bela ao mesmo tempo. A dor, a morte, a injustiça, mas também a música, a luz e a esperança tímida, sempre acesa em meio às cinzas. É impossível não se conectar, não sentir as lágrimas, o suor, o sopro de vida ou de desespero dos personagens. O que diferencia essa obra é como o autor, Bruno Ricetti, trata a magia que traz o poder que nasce da arte e da melodia, mas que também tem um custo físico e emocional.

“A última palavra saiu num soluço, e ela enterrou o rosto nos braços.

 Ele não respondeu imediatamente, o silêncio entre eles foi preenchido pelo som distante de um riacho escondido. O peso do que acabara de acontecer os esmagava, uma experiência traumática que os marca-ria para sempre.

 O poder dos Lamentos, descontrolado e violento, havia salvado suas vidas, mas deixara cicatrizes em suas almas, Kael sentia o sangue em suas mãos, uma marca indelével, e Liora carregava o eco de seu grito como um peso invisível. Os dois ficaram ali, tentando entender o que haviam feito e se perdoar pelo que tinham causado, o ar pesado com o cheiro de morte que ainda os seguia.”

O poder dos Lamentos, que Kael e Liora liberam, não é apenas uma habilidade mágica, é uma explosão de dor, medo e desespero, mas também de esperança. Eles salvam suas vidas e de outros, mas carregam o peso de tudo o que destruíram pelo caminho, e aquilo fica com eles, ecoando nas almas, como o próprio nome do livro sugere. “Lamentos da Alvorada Renegada” não poderia ser mais perfeito! O lamento é literal e emocional.

O volume 1 finaliza com feridas abertas, perdas sentidas e esperança incerta, deixando-nos com um gosto de quero mais e com o coração acelerado. Um livro que mostra que fantasia também pode ser profunda, dolorosa, real e transformadora.

“Seu mundo inteiro havia sido destruído em segundos. Não havia mais o pai forte para carregá-lo nos ombros, rindo enquanto o erguia ao céu, nem a mãe amorosa para tratar suas feridas com suas canções suaves que pareciam acariciar a alma. Ele não sabia se alguém em Venth ainda respirava, e as lágrimas que escorriam por seu rosto embaçavam a visão tornando a noite ainda mais densa, um véu que sufocava qualquer esperança”.

 

Volume 2 - O Domínio da Sombra

Se o primeiro volume abriu, para mim, as portas do gênero, o segundo, “Domínio da sombra”, não pediu licença: entrou, virou a mesa e deixou claro que esse universo de fantasia chegou para ficar. A leitura me proporcionou um misto de exaustão emocional e admiração. É uma obra que confia no leitor e não tem medo de ser densa e provocativa.

“O sangue não esquece seu caminho” e “A distância é um pensamento” não são só ameaças físicas, são declarações sobre como o inimigo transcende a força bruta. Para os Arautos, isso significa que lutar apenas com armas ou construções (muralhas, guardas, máquinas) não será suficiente. A batalha exige estratégia, percepção e inteligência, quase como um xadrez mental ou guerra psicológica.

Nessa continuação, percebemos que o verdadeiro horror não reside apenas em monstros ou máquinas, mas na lógica que sustenta o poder. O antagonismo nessa fase é assustador, justamente porque governa pela narrativa, pela conveniência e pelo conforto oferecido às massas.

Nesse cenário, a memória vira uma ameaça. Lembrar exige uma responsabilidade ética que o sistema não quer permitir. É impossível não traçar paralelos com o nosso mundo contemporâneo, em que discursos vendem estabilidade como valor absoluto enquanto tentam neutralizar o pensamento crítico.

A fala de Lisa é uma metáfora poderosa sobre a passividade das massas. Ela identifica que o povo de Auren não está sendo dominado apenas pela força, mas pelo conforto. Em um mundo exausto por guerras e invernos eternos, a promessa de uma vida sem esforço oferecida pelas máquinas é tentadora demais. A comparação com as ovelhas sendo engordadas é brilhante. O "pastor" provê o alimento e o descanso, mas o objetivo é o abate. A submissão é vendida como "descanso", mascarando a perda da liberdade.

No segundo volume, os personagens ganham uma profundidade psicológica rara. Liora me atravessou em seus dilemas sobre o tempo e o que não pode ser devolvido. Já Nero traz um alívio agridoce, que nos faz questionar: o que somos quando não conseguimos mais lembrar? São figuras que nos despertam desde risadas até lágrimas de pura empatia.

O protagonista Kael, por sua vez, é o herói que nos tira do sério. Impulsivo e falho, ele erra e sofre as consequências de cada ato impensado. Mas é essa humanidade que o torna especial. Ele não sai inteiro de suas batalhas; ele carrega as marcas de quem salva o mundo, mas precisa aprender a viver com os estilhaços do que restou.

Enquanto no volume 1, vemos uma jornada de sobrevivência e descoberta, em que o foco está na construção dos protagonistas, por isso é uma história mais íntima, sobre o despertar de poderes e a fuga do perigo imediato.

no volume 2, tudo é mais político, mais sombrio e muito mais maduro. Terminei a jornada com o coração acelerado e uma percepção incômoda: o mal nem sempre vence pela força bruta, mas, muitas vezes, pela paciência e pela manipulação das verdades.

O que percebemos desse universo é que a magia (Lume) é uma energia consciente e compartilhada. Diferentemente de outras fantasias, em que se gesticula ou diz palavras rúnicas, Bruno usa a magia como expressão artística (música, poesia). Ou seja, nesse universo, a sensibilidade é uma forma de poder, e os deuses não são figuras distantes e perfeitas em altares, mas seres que interagem, sofrem julgamentos e dependem de seus “Arautos”. Existe uma interdependência entre o humano e o divino, que é muito rara na fantasia tradicional.

Além disso, no segundo volume percebemos que é um mundo que já viveu apocalipses (como a Guerra das Máquinas) e que a tecnologia e a magia vivem em uma tensão constante. O universo de Bruno Ricetti sugere que a humanidade está sempre em um ciclo entre evoluir e se autodestruir, e que a única coisa que pode quebrar esse ciclo é a memória preservada pelos Lamentos.

Se no primeiro volume somos apresentados ao “sentir” da magia, no segundo somos confrontados com o “pensar”. O universo de Ricetti nos mostra que a maior arma de um povo não é sua espada, mas sua capacidade de lembrar de onde veio. O encerramento  deixa perguntas inquietantes sobre o futuro dos deuses e da humanidade.

“O silêncio após a batalha não era alívio. Era ausência. O portão estava livre, sim, mas o preço havia se entranhado em sangue, suor e marcas que não cicatrizariam facilmente.”

A saga de Ricetti prova que a fantasia nacional pode, e deve, ser profunda, dolorosa, real e, acima de tudo, transformadora.


Drielly Passos – Leitora assídua desde a infância entre as estantes da Biblioteca Municipal. Interesso-me por narrativas que tencionam poder, moralidade e condição humana, comm predileção por terror, suspense, distopias e fantasia. Graduada em Pedagogia (UFPA) e Matemática (UFTM), neuropedagoga, atua com atendimento pedagógico para alunos com dificuldade ou transtorno de aprendizagem.

 

Nota: os textos desta seção não necessariamente refletem a opinião da Revista O Bule.