30 de mar. de 2022

Maquiagem linguística

Por Allyne Fiorentino 

“– Não vamos refazer, como você tinha pedido.  – Tá, então, o que o senhor vai fazer? – Vamos tirar o madeiramento podre, colocar um novo, colocar os rufos, criar uma calha e depois colocar as mesmas telhas. As telhas, não vamos comprar novas. Dá pra utilizar essas aí. (silêncio). – Ok, faça isso então”. 

Se isso não era refazer um telhado, eu não sei como nomear. E eu nem tive coragem de perguntar: do que o senhor chamaria isso tudo senão de “refazer”? Talvez eu seja uma pessoa de espírito destruidor, quando constato que algo tem muitas imperfeições, penso mesmo logo na refação. No refazimento, palavra que pode doer os ouvidos, há uma espécie de otimismo, de que algo possa mesmo ser feito novamente para sanar seus defeitos. Uma borracha existencial de um telhado malfeito que nunca existiu, que pode ser apagado com a incorporação da palavra “fazer” com prefixo “re”. 

Mas, para além da barreira da língua, essa que quanto mais sabemos mais nos calamos, eu acho que a questão é mais wittgensteiniana do que pensávamos. A não escolha de “refazer” implica uma postura menos drástica, diria, talvez, “consertar”. A escolha do conserto pressupõe que o malfeito será desfeito, mas sempre deixará uma cicatriz. Dela poderão vir outros defeitos... defeitos novos de coisas malfeitas consertadas, o que tornaria o trabalho infinito para quem conserta, mas não refaz. É uma postura filosófica. Ah! mas kintsugi... sim, eu sei, ninguém conheceria tanto essa arte de consertar se não fossem os inúmeros textos de gratitude e paz cintilante – esses que adoçam nossos dias como aspartame... simulando o adocicado com um gosto ruim na boca – mas nosso kintsugi paradoxal diário é tentar refazer coisas que não precisam de conserto e, ao mesmo tempo, tentar consertar o que precisa ser refeito. 

Mas voltando ao telhado, enquanto o “refazer” for nomeado como “conserto” o preço seria menor, a disposição de quem vai executar poderia ser maior, o tempo seria menor. É por isso que eu não o questionei, ele poderia ter tido um “clique”, percebendo que aquilo tudo era “fazer de novo” e ele poderia desistir, aumentar o preço, aumentar o tempo, diminuir a automotivação de trabalhar... É tudo uma questão linguística! 

Nem que seja por um tempo muito curto, a tentativa de refazer disfarçada de consertar é uma pequena perversidade humana que acontece sorrateiramente nas pequenas coisas que não nos damos conta. Quando nos maquiamos, uma base de alta cobertura apaga os nossos traços e nos deixa com cara de fantasma 2D por alguns segundos, até você vir com um pincel de contorno e refazer as suas feições, as suas sombras, dando um formato de novo para aquilo que foi apagado. Claro que manipulamos esses novos formatos pincelados a nosso favor para afinar o nariz, aumentar a boca, diminuir ou aumentar o queixo, as máscaras que realçam e os lápis que desenham melhor os olhos, as sobrancelhas... Por fim, damos o rubor com um blush para simular “um ar de saudável”, porque nada é mais importante do que parecer natural, parecer saudável, parecer orgânico... Só parecer. Se isso não é refazer um rosto, não sei como nomear. Claro que depois de água e sabão, tudo volta ao estado natural do “malfeito”, o estado pré-kintsugi. 

Outra solução menos temporária e menos ainda pró-kintsugi é a plástica. Nunca soube como os religiosos lidam com a refação do corpo que deus lhes deu. Parecem mal-agradecidos por querer refazer um peito, realocar as gorduras, refazer um nariz de um receptáculo que, segundo eles, veio do barro e miraculosamente tomou vida. OK, senhor deus, você nos deu uma alma inquieta e um corpinho malfeito, tente melhor da próxima vez, nós daremos nosso jeito de refazer a nossa alma com a mutilação de nossos corpos. Os vícios? Esses nós vamos apenas consertar... devagarinho, esperando que nossos consertos repetitivos, por acúmulo, um dia se tornem uma grande renovação. 

Para vocês verem que tudo é questão linguística, é melhor dizer realçar a beleza existente, consertar pequenos defeitos, redesignar partes, redesignar a alma, seria violento dizer: refazer o trabalho de deus. Isso é ruim pros negócios. Mesmo pra um ateu. 

O fato é que a língua é poderosa. Eu poderia ter dito, “então é refazer, meu senhor! Você vai refazer esse telhado”. Mas é mais perverso que eu diga, com os pés afundados em escombros: então, além do telhado, o que mais o senhor pode “consertar” pra mim? 

 

Allyne Fiorentino é mineira e mora em São Paulo. Mestra em Estudos Literários pela Unesp, especialista em Design Instrucional e graduada em Letras Português/Espanhol pela UFTM. Atuou na área de pesquisa de Teoria e Crítica da Poesia, Simbolismo brasileiro e hispano-americano, estudando os autores Cruz e Sousa e Rubén Darío. Atua na área de novas tecnologias aplicadas à Educação a Distância e autoria de material didático. É apaixonada por Literatura Feminina como instrumento histórico-social para compreender o papel atribuído à mulher na sociedade e o feminismo.


       
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