24 de dez. de 2021

Somos todos uma sequência de pequenas tragédias

Por Milton Rezende

Paredes

Estou cercado de objetos
sem expressão ou significados
(utensílios para o desempenho
de um trabalho sem utilidade).
 
Tenho as mãos ocupadas
na tarefa de preencher
o vazio com papéis
de números impressos.
 
A cabeça gira à procura
de lembranças que possam
desviá-la do tédio
de ver gentes.
 
Arquiteto planos
sem propósito algum
além de preencher
as horas de um expediente.
 
Estou cercado pelos
quatro lados de um cômodo
onde recebo clientes
de um banco de dados.
  
Tudo é muito lento
como o motor ligado
de um ar-condicionado
a esfriar meus pés.
 
Tenho um olhar cansado
de olhar o silêncio e
estar calado, ouvindo
vozes que não decifro
e tenho medo. 

Zero

Somos todos uma
sequência de pequenas
tragédias, assimiladas
e diluídas no cotidiano.
 
Somos todos uma
síntese precária
de contradições.
 
Somos seres
dilacerados por
princípio e no cais
aguarda-nos o caos.
 
Somos o resultado
desta digestão difícil
de acontecimentos
diários, e a nossa vida
é uma enorme engenhoca
a moer nossos sonhos.
 
Sentimo-nos no final
quando nossos corpos
escaldados já não produzem
mais substância.
 
Quando somos restolhos
de nós mesmos e já não
é mais possível nenhuma
reciclagem de nossas carnes
cruas, nuas de significação.

 

Do livro Inventário de Sombras (Multifoco, 2012), esgotado.