24 de mai. de 2021

Meus olhos verdes (folhetim romântico) – Parte 8

Por Rogers Silva

31 –

Geisel, após chegar em casa, trocou a roupa, foi à cozinha comer alguma coisa, se sentou um pouco na sala e se direcionou ao quarto, seu local favorito. Pensava, ao olhar aquele espelho grande, em como o ganhara. Seus pais, antes de ele vir para Uberlândia, disseram-lhe para trazê-lo. Tinham-no comprado numa dessas lojas de móveis antigos, numa viagem ao Rio de Janeiro. Acharam-no lindo e instigante. Geisel tinha dez anos quando compraram o objeto numa loja do Rio. Agora, ele foi ao som e colocou uma música da Ivete Sangalo, deitou-se na cama e, embalado pela melodia da canção, olhando distraidamente a moldura desgastada do espelho, pensava em Jéssica. Achava que ela tinha sido a melhor coisa que acontecera em sua vida. No dia seguinte, sábado, acordou cedo e foi ao shopping trabalhar. Chegou em casa às seis da noite. O seminário começaria às sete. Precisava se arrumar rapidamente. Desde quinta-feira não falava com Jéssica, por isso, ao tomar banho, se vestir, pensava nela... Durante toda a tarde tentara se comunicar com ela, falar-lhe do evento acadêmico no sábado, mas não a encontrara. Pelo telefone sua mãe dissera que Jéssica havia saído. Mas Geisel, agora em casa, não se preocupava em não ter encontrado a namorada, pois pensava nas últimas palavras ditas, na quinta-feira, último dia em que se falaram: Eu te amo, viu? Nunca deixe de acreditar nisso – e desligara o telefone. Falara meio soluçosa.

32 –

Geisel descia pela avenida Segismundo Pereira, no seu Chevette rebaixado, curtindo o aroma do vento que, suave, passava a impressão de que a noite ia ser agradável. Uma noite gostosa – pensava. – Depois do seminário, se não demorar, vou ligar pra Jéssica ir lá pra casa. Aproveitar a noite... O seminário ocorreria no auditório do Bloco B, perto do Bloco A e, um pouco mais acima, do Bloco J. Estacionou o carro em frente a este bloco e, ao fechar a porta, avistou um casal (Ou não... – pensou), um(a) bem próximo(a) da(o) outra(o). Geisel se direcionou rumo aos namorados, pois teria que passar por perto para ir ao bloco onde aconteceria a palestra. De repente, um baque. Ao olhar involuntariamente para o casal, tão grudado, sentado no mesmo banco em que ele tinha dado o primeiro beijo em sua namorada, um grande abalo. Um tremor tomou conta do seu corpo inteiro. Ficou sem palavras, sem ação, sem percepção dos sentidos, completamente desorientado ao enxergar os olhos brilhantes de Jéssica (aparentava um olhar apaixonado) direcionados a... a... que-que..., meu Deus!, a beijava? “Agora sim, tá tudo claro!” Despediam-se? Já?! Marina, após o-o, Deus, beijo?, e um beijo apaixonado, sim!, viu Geisel parado, olhando, perplexo, e se assustou. Apontou o indicador, cutucando Jéssica. “O quê?” A princípio não entendendo, uns cinco segundos depois também o viu. Não pareceu se assustar muito. Apenas arregalou um pouco os olhos. Mas recompôs-se. E olhou-o com um semblante tão calmo que aquilo fez crescer sua raiva momentânea. Uma confusão de sentimentos o atormentava. “Agora sim!” Não sabia o que fazer. “Tava na cara!” Pasmou-se ante a inexplicável traição de Jéssica. E logo com ela, com Marina.

33 –

Enquanto Jéssica tentava se explicar, acusando-o de estar tão ausente ultimamente (Ausente? – não se conformava com as desculpas) e dizendo que mesmo assim nada fizera, aguentara, apesar da carência, Geisel olhava-a e se lembrava de forma confusa do quadro de armação bronze com rajadas negras que dois dias antes mandara fazer, o rosto dela estampado – uma foto, ampliada num estúdio, que tiraram numa dessas viagens de reconciliação. Um quadro que, enquanto não dava à namorada, tinha o colocado na parede do seu quarto – substituído o mapa da cidade natal pela peça. O rosto concreto, este, se fundia ao rosto da foto. Um semblante tão estranho, tão desconhecido dele! Como, em mais de nove meses, nunca percebera essa feição? Deus, como pude ser tão tolo? Por que ela fez isso? “Por quê?!! – e o grito instintivo.” Jéssica se assustou. Mas forçou para permanecer na situação de aparente normalidade que escolhera forjar. Depois de dizer a Marina algo, talvez que queria conversar com Geisel (estático, olhava-as com um olhar incompreensível), esta se afastou. Agora ele e Jéssica conversavam. Com um semblante entre constrangido e cínico, Marina (pouquíssimas pessoas espalhadas, aqui, ali, cúmplices) a uns cinco metros de distância os observava.

34 –

“Liguei o toca-cd. Não escolhi o álbum, apenas dei play. Qual teria sido a última música que eu ouvira ali, naquele quarto pequeno? Aumentei ao máximo o volume. Que ninguém ouvisse o meu pranto. Mas quem poderia ouvir o meu choro? Eu estava completamente só.

O telefone tocava.

Eu estava desesperado, estava em pânico. Pode parecer exagero, mas eu nunca conhecera uma dor tão forte. Eu estava sofrendo. ‘Estava’ é piada. Estou... (Mas a canção ridícula que passa agora na rádio abranda a dor).

Naquele dia, a canção: Meu coração, sem direção...

Deitei na cama e desatei a chorar. Chorava alto, soluçava e fazia todos os tipos de perguntas que eu pudesse: Por quê? Por quê?! Por quê?!!

As estrelas vão me guiar...

E o telefone tocava.

Eu mordia o travesseiro. Assim diminuía o volume do meu choro. Que ninguém ouvisse. Mas a dor não diminuía com as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. O travesseiro, em poucos minutos, estava molhado.

Não! Essa música, não! Só no refrão percebi que a tal era exatamente a primeira que Jéssica me oferecera, um dia, numa dessas rádios. Dizia lembrar de mim todas as vezes que a ouvia.

E agora, se lembra de mim, Jéssica? Onde está o seu amor? Evaporou? Onde está aquele amor verdadeiro com o qual dizia que me amava? Me mostra. Eu quero vê-lo! Onde está?

Num beijo que eu jamais provei igual... Preferível fosse não ter provado. Um beijo de Judas. Um beijo que de tão doce se tornou amargo, como as lágrimas que eu provo sem querer agora – eu pensava, eu chorava.

O telefone tocando... Porra!

Se eu não te amasse... Agora não estaria chorando – murmurei, após ter tirado a música. Preciso de algo mais agressivo – pensei. Algo que me faça quebrar tudo que está em minha frente – exagerava por causa do sofrimento.

Odeio essa música! – gritei. Odeio você, Jéssica! Odeio esta dor no meu peito! Não. Não havia ódio em mim, por incrível que pareça. Indignação, sim. Um enorme sentimento de injustiça. E constrangimento, vergonha. No meio de tantos CDs espalhados pela pequena mesa, na qual ficava o aparelho de som, um me fazia lembrar de Jéssica. Um é piada: em tudo eu via Jéssica. Tudo que eu olhava me fazia relembrar daquela cena. Um dos álbuns Love colection que ela me dera. Peguei-o, ainda chorando, um choro mais ameno, e de repente subiu um ódio tão grande que, quase sem perceber, joguei-o contra a parede. O resto do CD (a capa de plástico dentro da qual ele estava) espalhou-se pelo ar, caindo caindo ao chão.

Por quê? – após os porquês eu me derramava. Chorava.

E o telefone não mais tocava. Melhor assim.

Por que eu fiquei daquele jeito quando as flagrei, tão sem ação, tão sem palavras? Eu deveria ter dado uns murros na sua coleguinha, naquela cara lavada, cínica, que parecia achar o que faziam a coisa mais normal do mundo. Putas. Sem-vergonhas.

E Jéssica? Eu deveria ter gritado, falado tudo o que sentia! Entretanto, não consegui falar quase nada. Que cheiro é esse? Você está fedendo álcool! Você bebeu? Você está fedendo álcool com cigarro. Você fumou? Você está horrível, Jéssica! Por que me olha assim tão cinicamente?! O que faz agora não é nada normal. Não pense que vai sair sem marca. Por que me olha assim? Por que me fala assim, de forma tão dura? Você está sendo injusta. Você foi muito injusta comigo, Jéssica. 

Por que me acusar por algo que você estava fazendo? ASSUMA SEU ERRO! Seja sincera, justa, verdadeira e assuma seu erro! O que mais me doía, quando me lembrava do acontecido, era a expressão desavergonhada de Jéssica.

E aquela idiota que ficava ali nos rondando! Fala pra ela sair daqui senão vou matá-la – gritei.

Jéssica foi até Marina, encostou suas mãos nas mãos dela e disse-lhe alguma coisa. Eu ficava olhando aquela cena patética e dava-me uma vontade de ir lá e... Fazer algo que as machucasse, que as fizesse sentirem a dor que eu estava sentido. Humilhá-las, pensei em humilhá-las. Mas só pensei. Não tive, em momento algum, atitude para fazer qualquer coisa. Eu me encontrava atônito. Nada disso está acontecendo comigo. É tudo um sonho. Isso! É tudo um sonho – eu pensava ali, enquanto Jéssica se justificava me acusando. Sim, ela tentava se explicar (Engano seu... – dizia) e me acusava (o culpado sempre acusa). E não era um sonho...”

O texto acima se encontra digitado em duas folhas A4. Próximas a outras, jogadas de qualquer maneira em cima da mesa, numa sala pequena, na casa de um jovem, transmitem um ar de desorganização.

 

* Publicado originalmente no livro Manicômio (2012).

** Continua no dia 29 de maio.