15 de jul. de 2020

A arte de escrever narrativas #1

Módulo 1: Tenha domínio dos recursos artísticos e linguísticos disponíveis

Por Rogers Silva

Mas por que linguísticos e artísticos se a literatura é a arte de usar tão somente as palavras? Simples. Porque os recursos e os meios – ainda mais hoje em dia, com o Word e outros editores de textos até mais ricos – são muitos e as possibilidades, em consequência, infinitas. Mesmo que levemos em consideração apenas as palavras, as possibilidades de criação já beiram o infinito. Exemplifico de forma simplória:

João tropeçou e caiu.

Apenas uma frase (se texto em prosa). Ou um verso (se poesia). Qualquer um consegue visualizar a imagem a partir das palavras, pois é para isso que elas servem, certo? Um personagem (no caso de narrativas) que, ao andar, tropeça e cai. Agora brinquemos com essa frase: 

João tro-

   pe-

   çou

           (aiiiiiiiii)

               e

                 c

                a

                i

                 u

                    TUM!

Praticamente a mesma frase, com o acréscimo de uma interjeição (ai!) e uma onomatopeia (TUM!), porém, escrita de uma forma completamente diferente: as palavras e sílabas dispostas no espaço (em branco, nesse caso) de maneira a criar uma imagem de (prenúncio de) queda. É disso que trata este módulo: domínio dos recursos (linguísticos e artísticos)

Nascido em 1839, começou a publicar em 1864. Quais eram os recursos/meios disponíveis à época? Computador, máquina de escrever? Não, óbvio. Nem um dos dois havia sido inventado ainda. Sem falar que estamos falando do século XIX em um país periférico, Brasil, onde as tecnologias chegavam com bastante atraso. Pense nisso. Mas, então, como Machado escrevia? Possivelmente com lápis ou caneta, surgidos no século XVIII, embora ele discorra, em seus textos, bastante sobre a “pena” (usada no ato de escrever durante mais de dois mil anos, acabou se tornando metáfora para a escrita e a literatura

Fonte: p. 73 do livro

Brás Cubas escrevia maquinalmente,

Crê você que teria o mesmo impacto se o verso em latim e o nome do autor tivessem sido escritos em uma linha ininterrupta, como em qualquer texto em prosa (Arma virumque cano. / Virgílio.), sem nenhum tipo de destaque, de repetição, sem essa disposição na página em branco? Não. O autor não passaria o mesmo efeito e o trecho não comungaria de maneira tão adequada à situação atual do personagem (de alheamento e de reflexão sobre a morte da mãe) e à importância desse capítulo para o romance

Mas, agora no século XXI, quais são os meios disponíveis para a escrita de um texto? Todos os acumulados durante os séculos + os inventados nas últimas décadas = muuuuuuuuuuuitos. Você precisa usar e dominar todos? Não necessariamente. Mas é preciso conhecê-los (lápis, caneta, máquina de escrever, Word) a fim de escolher aquele que mais se adequa aos seus propósitos. No mínimo, precisa dominar os recursos de pelo menos um editor de texto (Google Docs, Word Online, Graphite Writer, FastFormat, LibreOffice, Microsoft Word, etc.). Atente-se, no exemplo, aos recursos utilizados (  

Fonte: p. 163 do livro

Primeiro, uma onomatopeia representando o barulho do funcionamento de uma máquina. Posteriormente, a diminuição da fonte de maneira a (tentar) representar o universo e a “voz” de uma pulga. Contextualizando: tratam-se de dois personagens que, através de uma máquina do tempo, conseguem ir para qualquer lugar, em qualquer tempo, enxergar a mente de qualquer ser, independente do planeta em que ele more. É uma história de minha autoria, inserida na novela

Eis agora outro exemplo, também retirado do  

Fonte: p. 171 do livro

Trata-se de uma carta escrita por um personagem anunciando o seu suicídio e, de quebra, uma homenagem a um dos meus autores preferidos,

Fonte: p. 173 do livro  

É preciso deixar claro que os recursos – sejam as palavras, os espaços em branco, os tipos e tamanhos de fontes disponíveis, as diversas imagens e símbolos que os editores de textos hoje em dia oferecem – devem ser utilizados de acordo com o contexto da história (entende-se enredo) ou da imagem propiciada pelo verso (quando poema). Tudo em um texto (sobretudo em um texto literário) precisa ter razão de existir. Apenas brincar com as palavras e/ou com os recursos disponíveis não faz de você um bom escritor. É necessário refletir sobre a importância da utilização daquele recurso. É viável? Faz sentido? É adequado? Se a resposta for sim, não se acanhe!  

Para não dizer que não falei de palavras (mas só de onomatopeias, tamanho de fonte, cores, meios de produção de textos), pensemos em  

"Mas... nunca pensei em nada disso, por quê?" 1) Ou porque sua história ou seu texto não exigiu; 2) Ou porque ainda não domina os recursos linguísticos/artísticos disponíveis, o que é comum (na verdade, ninguém –  

  • Leia os clássicos, sejam nacionais ou estrangeiros. Acredite, eles têm muito a nos ensinar.
  • Nem que seja apenas um conto, leia Guimarães Rosa. Verá o quanto de imaginação e criatividade possuem ali e até que ponto a potencialidade da linguagem verbal escrita pode chegar.
  • Conheça os concretistas brasileiros (em especial, Décio Pignatari, Haroldo de Campos e Augusto de Campos). Eles propiciarão raios de luz sobre sua escrita. 
  • Tenha um ótimo dicionário em casa (se possível, impresso).

São apenas quatro dicas, mas coloque-as em prática para você ver: um portal de possibilidades abrirá em sua frente! 

 

* Confira, no próximo dia 27 de julho, o módulo 2 desta web-oficina.

** Caso se interesse, pode adquirir obras de 😊

*** Para adquirir o livro de minha autoria, o

**** Para aprofundar nessas e em outras questões, realize a versão completa da web-oficina (imagem abaixo). Para ter acesso ao programa, pode pedir o programa pelo e-mail coisasprobule@gmail.com (Assunto: Web-oficina) ou clicar na imagem abaixo.

 


[1] Sugiro a leitura do artigo Os materiais na História da Escrita (das placas de argila da Suméria às pastilhas de silício dos processadores actuais, de autoria de Armando A. de Sousa e Brito.