15 de set. de 2010

Último capítulo

Por Fábio Flora
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Olhou para a mão toda suja de giz. A camisa também, e a pasta. O cabelo ficava ainda mais grisalho depois de uma aula de função sintática. As setas ligando sujeitos a predicados. Uma viagenzinha do nada ao lugar nenhum. Havia treze anos que fazia essa viagenzinha. Treze anos. A mesma viagenzinha. Do nada ao lugar nenhum. Professor, professor, tá na hora! Podemos sair?
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Ainda faltavam alguns minutos, mas Carlos já estava com o material arrumado – como seus alunos. Só restava apagar o quadro e dizer o tão esperado “Podemos sair”, a oração que guardava o sujeito oculto nós e outro ainda mais oculto, simples, eu. Carlos não ouviu os tchaus da Ana Beatriz, do Alan Rodrigo, da Taty. Desceu as escadas feito um zumbi e só acordou no banheiro, com a água fria lavando as mãos. Esfregou entre os dedos. Esfregou mais. Até não restar sinal do pó.
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Saiu da escola apressado, atirando no ar um “bom final de semana” que ninguém escutou nem retribuiu. Correu duas, três ruas enquanto calculava o tempo que levaria no metrô, que levaria no banho, que levaria comendo, que levaria escovando os dentes, que levaria esperando a hora da novela, do último capítulo da novela. Os faróis dos carros já estavam acesos. Alguém buzinou. Era o Zé Renato (o professor de história) oferecendo carona – e suas lembranças de revolucionário frustrado. Não, obrigado. Não estou indo pra casa.
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A fila do metrô estava maior do que o normal. Cinco bilheterias, dois bilheteiros e uma senhora exigindo o troco. Não havia troco disponível. Um rapaz tentava ajudá-la a conseguir seus centavos. É um direito dela, de todos nós. Duas mocinhas disfarçavam o constrangimento trocando risinhos cúmplices. Ia juntando plateia. A maioria suspirava chateadamente, olhando o relógio. Seis e dezessete no celular de Carlos. Vou me atrasar vinte minutos por causa de vinte centavos. Próximo.
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Carlos enfim chegou ao outro bilheteiro. Deu o dinheiro certinho, como todos os dias fazia. Deixava as moedas separadas para a semana inteira. A passagem de ida num bolso, a de volta no outro. Fazia sua parte para que a fila jamais parasse por causa dele. Ninguém perderia um minuto sequer por causa dele. Ali do lado, a senhora continuava exigindo o troco.
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A plateia agora juntava na plataforma. Aquele empurra-empurra quando o trem parou e abriu as portas. “Mind the gap”, lembrava o letreiro. Mind the gap, mind the gap – “cuidado com o vão” em bom português. Carlos procurou um canto onde incomodasse o menos possível. Precisaria de um canto menor se não fosse sua pasta, abarrotada de redações que fingiria corrigir. Achou seu lugar. O nariz longe o suficiente de qualquer cotovelo agitado. Fechou os olhos.
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Glorinha estava em dúvida. Clara e Isabel, suas melhores amigas, diziam que ela devia fugir com o Tarcisinho. Ele era o cara. Aquela barba sempre por fazer. As chaves do carro sempre na ignição. As malas sempre arrumadas para a próxima viagem. Todas as outras mulheres aos pés dele, ele aos pés de Glorinha (desde que soube da herança que o avô dela tinha lhe deixado). Isso o Tarcisinho manteve entre parênteses durante oito meses. Meses saborosamente repletos das vilanias da Odete, dos dramas da Helena, dos mistérios do poderoso Adalberto Vasconcellos, das piadas da Dona Jurema, dos encontros e desencontros com o apaixonado Carlos...
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... que voltou ao vagão assim que sentiu o golpe na boca estômago. A cotovelada doeu um bocado. Me desculpe, moço. O telefone. Isso era hora de procurar o celular? E para ouvir música? Mesmo dolorido e contrariado, Carlos fez sua melhor expressão para a mulher – talvez porque fosse a mais bonita entre tantas cabeças e braços. Na verdade, fez a única expressão que sabia fazer nessa e em (quase) todas as horas: a de quem não tinha se incomodado nem um pouco.
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A estação terminal, enfim. A sua estação. Passou pela moça do cachorro-quente, pelo rapaz dos DVDs piratas, pelo senhorzinho da pipoca, pelo homem do cuscuz, pelos taxistas, pelo mendigo que ignorava todo santo dia – religiosamente. Aquele coitado não sai mais daqui. Ninguém toma uma providência. Aquele filho da puta de novo, se faz de surdo. Ô tio, ô tio, com todo o respeito, na moral, tô morrendo de fome, dá um dinheiro pra comprar um prato de comida. Safado.
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Carlos entrou em casa, acendeu as luzes, deixou a pasta sobre a escrivaninha e se trancou no banheiro. Ahn, ahn... Ploft! Apertou a descarga. Ligou a água quente, ligou a fria. Assim está bom. Chuveiro. Que será que a Maria preparou para hoje? Carlos sabia – mas não resistia a pensar o mesmo pensamento de ontem, de anteontem, da sexta-feira passada. Toda sexta era dia de suflê de queijo.
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Uma delícia. Maria podia ser feia que nem o diabo, mas fazia um suflê divino – de comer rezando. Só por isso ainda trabalhava naquela casa. O melhor de tudo é que a encontrava apenas de vez em quando. Raramente escutava o barulho do aspirador, da batedeira, da máquina de lavar. Os horários não batiam. Ela chegava, e Carlos já estava na escola. Ele chegava, e Maria já devia estar no primeiro dos três ônibus até sua casa, bem depois de Campo Grande, a uma distância inimaginável do Leblon, muito maior que uma ida-e-volta até a lua. No Leblon – onde as vilanias de Odete seriam desmascaradas, os dramas de Helena teriam um fim, os mistérios do poderoso Adalberto Vasconcellos seriam desvendados, as piadas de Dona Jurema fariam rir pela última vez, Glorinha encontraria Tarcisinho e Carlos. Finalmente, ela decidiria com quem ficar. Power.
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Glorinha invade o quarto. Odete e Tarcisinho na cama. Não é isso que você está pensando. Cafajeste, ordinário, pilantra. E eu estava completamente apaixonada. Tinha mil planos pra nós dois. Calma, vamos conversar. Conversar o quê, seu sem-vergonha, miserável. A gente não tem mais nada pra falar. Acabou. Agora consigo entender tudo. Meu Deus, como fui cega, como fui burra. Você só queria saber da herança, do dinheiro que o meu avô deixou. Quer saber, vocês dois se merecem. Antes de sair, Glorinha dá um tapa na cara de Odete. Corta para a praia. Glorinha vê Carlos sentado num banco, olhando o mar, e se aproxima dele. Você sabia de tudo desde o início. Sabia, sim. Tentei lhe avisar várias vezes, mas você não quis me escutar. Me perdoa. Me perdoa por tudo, por todas as bobagens. Eu te amo, Glorinha. Sempre te amei. It’s a little bit funny this feeling inside. Carlos olha nos olhos de Glorinha, acaricia seus cabelos e a beija. Yours are the sweetest eyes I’ve ever seen. Enquanto um FIM risca a tela...
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... ele ajeita o travesseiro com um sorriso no rosto. Um sorriso que não se vê. Os créditos sobem, e Carlos não ajusta o despertador. Amanhã não tem de dar aula, não tem de ir à escola. É sábado. Pode acordar tarde. Pode ficar na cama de bobeira. Pode ficar o dia inteiro fazendo nada. Nada. Sem se preocupar com a fila no metrô, com o mendigo pedindo esmola, com aquele vão. Mind the gap, mind the gap. Pode ficar o dia inteiro comendo o que sobrou do suflê. O dia inteiro à espera da reprise do último capítulo – à espera da última vez que verá Glorinha.
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Fábio Flora é autor de Segundas estórias – uma leitura sobre Joãozito Guimarães Rosa (Quartet, 2008). Atualmente, coordena o Setor de Revisão da Editora da UERJ e dá aulas de Língua Portuguesa na rede municipal do Rio de Janeiro. Rabisca no http://ultramuito.blogspot.com/ e no http://twitter.com/fabio_flora.