Por Milton Rezende
“Eu quero os
meus brinquedos novamente!
Sou um pobre
menino
Que
envelheceu, um dia, de repente!”
(Mário
Quintana)
Tenho quarenta e cinco anos
e já neste meu último aniversário
foi levantada a hipótese irreversível
do envelhecimento antes da morte,
mas nunca sabemos o que virá primeiro.
Seja como for o assunto é desagradável.
Imaginei-me de carteirinha sexagenária,
entrando pela porta da frente dos ônibus
e viajando de graça pelo país dos meus netos.
Logo adiante eu precisaria sacar um dinheiro
no banco e haveria um guichê específico
esperando a minha dificuldade de caminhar.
Soube também que eu poderei requerer
um acréscimo no valor da aposentadoria,
para gastar com hospitais, médicos e remédios.
Seja como for o assunto é desagradável.
A minha vontade é rasgar
o estatuto do idoso
e voltar a ser criança.
Do livro Uma Escada que Deságua no Silêncio.
Nós e a geografia que nos deram
Somos como pássaros
extraídos de um livro
de ficção antes de lê-lo,
e, portanto, não sabemos
representar bem os papéis
que nos são atribuídos.
Somos personagens assustadas
e não temos pátria afetiva.
Assim que pudermos vamos saindo
e a gaiola de nossa existência
coletiva deverá ficar vazia,
sem merecer sequer um poema.
Do livro Inventário de Sombras.
Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, morou em Campinas (SP), Ervália (MG) e retornou a Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados e quatro e-books. Tem um site e um blog.
Fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015).
