21 de jan. de 2026

Nel Mezzo del Camin tinha uma cidade


Por Milton Rezende
 
Nel Mezzo del Camin (*)
 
À beira de um córrego frio
um habitante fabrica gaiolas:
de pau e arame,
de pau e taquara,
de talo e de cana-do-reino.
 
Na porteira chega uma visita
e ele está ali na tapera:
fatigado, doente, desanimado,
alinhavando projetos frustrados
e comendo pão com diabo amassado.
 
A presença que chega o estimula
e ele volta a sonhar com o tempo,
até acordar do seu sonho e vendo
“o teu vulto que desaparece na
extrema curva do caminho extremo”.

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(*) Olavo Bilac (1865-1918)
 
Do livro Uma Escada que Deságua no Silêncio.

 
Nos limites da cidade
 
Na umidade das pedras
que configuram o fim da rua,
eu deixo a cidade com suas luzes
e embrenho-me no seu depósito de restos
batido pelo silêncio e o desdém dos vivos.
 
Atravesso com passos rápidos
os últimos vestígios onde se respira
e concentra a massa indistinta de seres
que comem carne e habitam em casas para
gerar filhos que conferem um breve hiato
ao fim da espécie que apodrece sob o barro.
 
Minhas botas estalam nas pedras
como o casco de um animal inútil,
e os últimos postes de luz elétrica
escarnecem o meu propósito de deixá-los
para além de sua tarefa de apaziguar
os homens em seu conforto precário.
 
Olho para os lados para certificar-me
de que estou sozinho e então salto sobre
o muro de grades onde repousam os homens
que também comiam carne e geravam os filhos
de uma espécie da qual já não fazem parte.
 
Aqui foram deixados todos aqueles
que um dia não comeram carne e se tornaram inúteis.
E estão esquecidos aqui aonde venho encontrá-los
com seus semblantes de velhos idiotas que acreditavam.
 
Percorro os túmulos que abrigam os mortos
e me detenho nos epitáfios deixados
por parentes que na cidade desprezam estes restos
só pela lembrança de um dia já os terem beijado
na volúpia da carne que agora fede.
 
Antes de deixar o cemitério
e os despojos de carne mal digerida
desses cadáveres abandonados,
eu toco com minhas mãos sem luvas
a massa liquefeita de seus corpos.

Depois volto para a cidade
e acaricio os rostos dos filhos
com o excremento fétido de seus pais,
para que eles ainda sem sintam membros
de uma mesma adorável família putrefeita.
 
Do livro Areia (À Fragmentação da Pedra).
 
 

Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, morou em Campinas (SP), Ervália (MG) e retornou a Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados e quatro e-books. Tem um site e um blog. 

Fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015).