Por Ricardo Novais
Maria caminhava pela rua como quem carrega um segredo antigo demais para o próprio corpo. Não era bonita; e isso convém dizer logo, para que o leitor não se iluda; mas trazia no rosto a dignidade teimosa das mulheres que já perderam tudo e, mesmo assim, seguem em frente. Ao seu lado vinha José, homem de roupas cansadas e olhar resignado, desses que não discutem com o destino porque sabem que o destino, quando responde, costuma ser com bofetões.
Ambos caminhavam sem rumo claro, o que, aliás, é o único rumo possível aos que nada possuem.
De súbito, irrompeu pela multidão um menino correndo como quem foge do próprio nome. Pequeno, sujo, ligeiro. Atrás dele vinham os gritos; esses sim muito bem-vestidos:
_ Pega! Ladrão! Trombadinha!
Convém notar que a palavra “menino” nunca foi usada. Ninguém corre atrás de um menino; corre-se atrás de um delito.
O garoto atravessou a avenida como quem atravessa um purgatório improvisado. O ônibus veio como uma sentença: grande, barulhento e pontual em sua brutalidade. Não freou. Nunca frearia. O impacto foi seco, definitivo, quase elegante na sua eficácia. O corpo caiu no asfalto quente, espalmado, como se a cidade finalmente tivesse conseguido escrever seu nome em letras grandes.
Chamava-se Jesus.
Maria aproximou-se do corpo com a lentidão das mães que já sabem a resposta antes da pergunta. Chorou; chorou muito; mas não com desespero teatral; chorou com aquela economia de lágrimas típica de quem já ensaiou a dor em outras ocasiões. José ergueu os olhos ao céu, gesto antigo e inútil, como quem consulta um relógio quebrado.
Nada aconteceu. Nenhuma voz. Nenhum trovão. Nenhum anjo com problemas de agenda. Os céus estavam ocupados demais para assuntos de rua.
Não vieram reis magos; talvez o Waze não funcionasse ali. Em seu lugar, chegaram os guardas da GCM, zelosos pelo patrimônio público, mas humanos até certo ponto, organizando o cenário como se montassem um presépio às avessas. Delimitaram o corpo com fita amarela, essa auréola moderna dos condenados.
Os animais sagrados também faltaram. Nenhum boizinho, nenhuma vaquinha, nenhum burrinho. Compareceram, porém, ratos atentos, baratas solenes e outros fiéis habitantes do chão urbano, esses sim sempre presentes nos grandes acontecimentos.
Rezou-se apenas uma oração improvisada, cantada em tom burocrático:
_ Chama o rabecão...
E foi assim, entre curiosos, celulares erguidos e olhares que misturavam pena e alívio – ainda bem que não fui eu – que se celebrou o Natal.
Maria recolheu o silêncio. José segurou o vazio.
E a cidade seguiu seu curso, satisfeita por ter resolvido mais um milagre com eficiência administrativa.
Naquela noite nasceu – e morreu – um menino.
Ricardo Novais nasceu em São Paulo. Costuma dizer que só escreve
porque escrever é coisa infinita, ainda que seja somente rótulo. Rótulos podem
ser divertidos, superficiais, é verdade, mas bem divertidos. É autor do romance
O Boêmio e dos livros de contos Trem noturno e Perfumes da
pátria. Acredita que a vida e a morte são como um gol aos 45’ do segundo
tempo; o último gole é sempre a saideira.
