Aniversário do nosso fim
Não ter problemas de consciência.
Eu ouço esta frase e me calo,
com os pelos dos braços arrepiados.
Vendo a passividade de um velho
de tantos anos, o amor que temos quer
fazê-lo ingênuo e isento de qualquer
sentimento de remorso, de culpa ou de
ressentimento. Mas a consciência que
temos da consciência dele é periférica,
pois uma percepção não intercepta outra
em seu voo oblíquo, apenas mede o tempo
indevassável e o seu mistério.
Do livro Inventário de Sombras.
Jornaleiro
O menino vendendo o jornal
grita pelas ruas da cidade
com sua voz mecânica
(misto de automatismo e resignação).
A tristeza feita esquecimento
na sobrevivência através de palavras
rápidas e mal articuladas,
“olha o diário olha o diário”.
Naquela noite, ao voltar pra casa,
o menino morreu no trânsito,
e no dia seguinte
a sua morte não foi noticiada no jornal.
Do livro Areia (À Fragmentação da Pedra).
Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, morou em Campinas (SP), Ervália (MG) e retornou a Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados e quatro e-books. Tem um site e um blog.
Fortuna crítica: “Tempo de
Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”,
de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015).
