22 de out. de 2021

Como quem sai de si mesmo

Por Milton Rezende 

Delírio

A porta fechada
escondia a fúria
do outro que em mim
se debatia.

Ouço passos na escada
e me contraio todo
no silêncio nervoso,
para que não percebam
a silhueta de minha desgraça.

O vento nas cortinas
me transmite
(na sua dança impetuosa),
a agonia de dentes e o sangue
no grito das carnes das vítimas.

Os jornais já trouxeram
em suas manchetes
o rastro de minha maldição
estampada na contagem de mortos.

Agora os passos se detiveram
no alpendre da casa,
onde a lua e os seus fantasmas
esculpem meu sortilégio noturno.

Dominado pela febre compulsiva
me arrasto pelo assoalho até a sala,
onde arfante e desfigurado

aguardo o girar da chave.

(   )

Suspenso na tarde
como uma lâmpada queimada
num porão deserto,
figura o lado esquerdo
de um parêntesis aberto.

Seu estado resulta
do itinerário de sombras
em que um homem se perde
na solidão de seus próprios passos,
esquecidos sequer sem deixar uma marca.

Sua abertura demonstra
a imperiosidade do erro
que determina sempre
que as flores se abram para cumprir
seu papel de beleza e de decomposição.

O parêntesis aberto no escuro
não é senão a necessidade
de se sair do estágio de clausura,
quando se esgota (ou assim se imagina)
a fonte de oxigênio íntimo do ser.

Mesmo quando já se sabe
que na asfixia de ele estar fechado
sobrevive pelo menos a sua integridade,
e abri-lo significa a dispersão da energia
que ele guarda de si para si como um transistor.

 

Ruptura

... Então eu saí
alquebrado e vertical,
numa verticalidade facilmente
pisoteada por insetos.
 
Saí (não como quem sai
de um lugar para outro),
mas como quem sai de si mesmo
batendo a porta com força.
 
Saí assim como quem sai
de um recinto a ser demolido
e já vislumbra a poeira
do tempo cortado em pedaços,
sem olhar para trás.
 
Saí para palmilhar sozinho
o enigma de um caminho sem rumo,
no qual me enveredo com a cabeça baixa
de quem perdeu a consciência de estar.

 

Do livro Areia (À Fragmentação da Pedra) (João Scortecci Editora, 1989) Pedidos pelo e-mail.  coisasprobule@gmail.com Preço R$ 20,00 + R$ 10,00 (frete) = R$ 30,00