10 de ago. de 2011

O Quarto Escuro

Por Paulo Laurindo

“Só do amor há de surgir meu desdém e minha ave anunciadora;

não do pântano”

Nietzsche, Assim Falava Zaratustra


Tirara tudo? Tem mais. Onde? Por aí, escondidos. Estava atrasado. E daí? O espaço precisava estar limpo antes da lua cheia. Que diabo tem a lua cheia com isto? É o prazo. Dane-se o prazo. Como assim, pensei que tivéssemos um acordo? Sei lá... É muita porcaria. Agora não tem mais volta. Estará limpo na lua cheia, satisfeita?

Subiu a escada chutando os espelhos dos degraus. Aquelas biqueiras faziam um barulho miserável. O ranger das dobradiças o deixava mais irritado ainda. Permitira chegar àquele ponto e agora o prazo. O cacete! Desarmaria aquela bomba? Cansado, saco cheio! Deu uma de bonzinho, falou manso. Mas, e o esporro de ontem? Ainda tinha nos ouvidos os gritos e as ameaças, ameaças que já estava acostumada a receber todas as manhãs embora fosse dele a tarefa de livrar-se das tralhas, teias de aranhas, ninhos de ratos e legiões de baratas e percevejos a impedirem vida naquele cômodo. Talvez por isto.

O cheiro acre da umidade gretando mofo na parede (pobre pintura! - pálido e carcomido azul) infiltrou no seu cérebro a lembrança do momento em que decidira candidatar-se ao combate, quando simulara possuir culhões, determinado a trazer àquele ambiente ar de bons modos. Agora, raiva e melancolia. Atolado em areia movediça: naquela cloaca (ou seria covil?). Nenhum imigrante boliviano seduzido pela fortuna se submeteria àquilo, com certeza, quanto mais crianças e muito menos uma mulher com pretensões artísticas. Muquifo! Era assim, destinado ao fracasso? Onde vivia o bom senso, a autoestima? Tinha que ser assim? Detonar, permitir que uma enxurrada levasse tudo pro ralo! Mania de reformar, de jogar uma capa por cima para depois dizer que sim, temos alternativa, novas possibilidades... Mês que vem novos buracos, algum encanamento esquecido, uma precária instalação... Mexer na estrutura nem pensar, botar abaixo e construir deveras - fora de cogitação, pois não? É assim que o mundo gira e a lusitana roda quando o prazer acaba. Ali, prisioneiro da própria lambança, comprometido até o talo. Vale a pena cuidar de quem não cuida de nós? Vamos lá, mecanicamente, só mais um dia. Amanhã será diferente? Já não cria. Só mais um dia, quem sabe...

No mundo do GPS, com margem de erro de aproximadamente poucos metros, todos conseguem chegar aonde desejam, na melhor relação custo beneficio. Assim, vale a pena fazer cálculos? Somar, dividir, subtrair, multiplicar. Por que não permitir que as sensações induzam percepções e danem-se as referências espaço temporal? E esta contagem em escala descendente, tendendo a zero, zero que nunca encontra! Poderia se quisesse atravessar aquela parede, não poderia? E por que o faria? Para flagrá-la? Jamais entraria no quarto para flagrá-la, embora sonhasse muito com isto (e ela nunca dera bandeira). Poderia entrar naquele banco e sair de lá impunemente com uma tonelada de dinheiro, quantos golpes na praça, resolveria? Poderia não cumprir com o trato, poderia deixar quantos projetos pela metade, poderia interromper a ação, poderia colocar uma bomba no alto daquele edifício, sair pelos parques atirando a ermo e depois sentar-se no meio fio e curtir o escorrer da meleca pela sarjeta afora, poderia jogar toda a merda do mundo neste ventilador, não poderia?... Então, terminaria o trabalho? Chega de brincadeiras enigmáticas. Diferença que se alastra e se alarga. Fosso, intransponível. Vai e vem, chove não molha, faz de conta, falta de...

No tempo de colégio aprendera este modo de interpretar as coisas, como se soubesse tudo o que era para saber e mesmo nunca tendo acertado mais que cinquenta por cento das questões nas provas, continuava a dizer que estava acima disso tudo, que era só uma questão de tempo, um dia descobriria seu talento inato e aí o mundo iria ver com quantos paus se faz uma canoa. A outra ficara lá, à espera que ele um dia voltasse, após servir ao exército, fazer o maior sucesso com uma banda de rock e ter conseguido comprar aquele anel de noivado que deixara prometido na tarde da despedida. Quantas histórias, quantos enganos, desde que... Chega! Bosta n'água não era. Poderia ser quem quisesse, a qualquer hora. Era alfa.

O menino e a menina entraram. A menina deixou-se sentar no primeiro degrau, enquanto o menino desceu dois e debruçou-se no corrimão. Está olhando o quê? Vai estar pronto no dia do meu aniversário? Seu aniversário? Sim, daqui a três dias, você esqueceu? Olhou a folhinha: lua cheia. Seguia por atalhos, travessas, vielas, becos escuros, sempre se esgueirando... Fugia de quê? Este quarto não possui janelas, vai ser difícil morar aqui! Não vou morar aqui, será o meu quarto de brinquedo. Ali ficará o computador, adiante a estante, a televisão... Construí na escola um sistema solar, vou trazer para pendurar no teto, não achava legal? É... Legal um quarto assim, assim... Queria sair, como faz todo mundo, mas não era todo mundo, não era tão grande assim. Volte para a sala. Você prometeu. O que prometi não importa.

A menina fez sinal para o menino que, ao retirar-se, levou o dedo indicador ao interruptor e apagou a luz. Bem que a vovó dizia que esta casa era assombrada, disse a menina a correr na frente.

Paulo Laurindo - Nasceu em Ilhéus (BA). Vive em São Paulo desde a adolescência, com um longo intervalo em Maceió (melhores anos da sua vida) onde teve dois livros publicados: A História do Homem Que Comeu o Próprio Corpo (Teatro) e O Reflexo e a Sombra (Poesias) pela Editora Catavento. Mantém uma página no endereço www.certoscontosincertos.blogspot.com