29 de mai. de 2010

'Mulheres' - Resumão

Por Claudio Parreira

Caros leitores,

MULHERES foi a minha estreia n’O BULE. E agora chegou ao fim.
Muitos de vocês acompanharam a série do começo ao fim, comentando, criticando, apontando erros & acertos. Outros tantos, porém, pegaram o trem andando, ou se identificaram com este ou aquele conto.
Pensando nisso, resolvi colocar aqui um resumão de tudo o que foi ao ar. Um agradecimento a todos os que leram; uma nova oportunidade para quem ainda quer ler.

‘Mulheres’ – parte 01

TERCEIRA

NÃO SEI quando passei a inventar mulheres. Não foi coisa de menino; depois de grande é que dei pra variar. Em pequeno fui responsável, o adulto que queriam pra mim. Muito juízo, eles diziam, mas eu sabia em silêncio que tudo era apenas uma questão de tempo. Pois então.

‘Mulheres” – parte 02

ESSA MULHER QUE EU NÃO SEI QUEM

RÁPIDO ASSIM: eu vi a mulher, ela se percebeu sendo vista, entrou no espelho e desapareceu.

‘Mulheres’ – parte 03

HISTÓRIA DE AMOR

TE FIZ O PRESENTE mais belo. Um embrulho de sílabas cintilantes, dentro dele uma caixa, dentro da caixa todo o meu amor.

‘Mulheres’ – parte 04

MALTE CLUBE

RENA, ESSE O NOME DA ZINHA. Toda noite no Malte Clube, as botas escondendo as canelas, o vestidinho exibindo as coxonas, o cabelão quase na bunda. Mas perdia a viagem quem chegava com lero-lero e finalmente. Rena dançava com qualquer um que pagasse, bebia, jogava bilhar. Mas nada de ir para o quarto como as outras, ficar no bem-bom. Era mulher da patroa, dizia pra todo mundo ouvir – e quebrava a cara de quem se metia a besta.

‘Mulheres’ – parte 05

MULHER NO BANQUINHO

TARDE QUENTE da porra, nenhum movimento.

‘Mulheres’ – parte 06


QUIMERA

EU VENDIA HIPOPÓTAMOS na feira quando vi a mulher pela primeira vez: linda, os cabelos louros esvoaçando do sovaco, dois metros e meio de pura tentação.

‘Mulheres’ – parte 07

MARIANNA

TUDO ACONTECE AO CONTRÁRIO em Marianna: os galos cantam ao cair da noite, os carros avançam de marcha-à-ré e sempre chove pra cima. Quando chove.

‘Mulheres’ – parte 08

A MULHER PERFEITA

UM PAR DE COXAS BEM ROBUSTAS
pede o freguês ao açougueiro.
— Pois não, senhor. Algo mais?
— As pernas, como estão as pernas?
— Frescas e depiladas. Foram abatidas ainda esta manhã.
— Bom, quero duas também. E pés, o senhor tem pés?
— Os meus são 44!

‘Mulheres’ – parte 09

Z

1

AGORA ESTOU NO CENTRO DO QUARTO, exatamente. Não há móveis nem tampouco uma cama: durmo no chão, coberto pela noite. Tenho alguns livros mas já não os leio. Desisti das palavras alheias; as palavras têm um sabor acre. Poupei apenas a letra Z. Assim eu me chamo.

‘Mulheres’ – parte 10

AQUILO QUE SUSTENTA O AMOR

ELA TEM TRÊS OLHOS, mas isso não me incomoda nem um pouco. Pelo contrário: são três olhos belíssimos, um deles um pouco torto, é verdade, mas ainda assim. Tem também uma cauda enorme, na qual tropeço de vez em sempre, mas isso pouco me importa. Às vezes, quando furiosa por coisas mínimas ou máximas, dependendo da posição dos astros ou do resultado das loterias, ela costuma me chicotear a bunda com a ponta espinhuda da caudalheira — mas eu até que curto isso. E dizer aos outros que ela tem o maior rabo do mundo me enche de orgulho.

‘Mulheres’ – parte 11

ALICE. MULHERÃO ESSA ALICE. E vivia querendo coisas:
— Compra um apartamento pra mim, bem?
Eu comprava. Porque ela, sorrindo, isso não tinha preço.
Alice era dada a excentricidades. Poucas, mas ainda assim:
— Compra a lua pra mim, bem?
Eu comprava. E colocava um punhado de estrelas no papel de presente.

‘Mulheres’ – parte 12

BACH, SUÍTE nº 3

A VAGABUNDA ACABOU DE CHEGAR: abre as cortinas, depois a janela, olha pra mim e sorri, veja só. Eu murmuro um insulto e ela começa a tortura de todas as noites: senta-se na beirinha da cama, de pernas abertas. Tira um sapato, depois outro. Eu vejo tudo isso suando, a vertigem querendo me fazer despencar os treze andares.

‘Mulheres’ – parte 13

IGUAIS

VOCÊ DESCREVE A MULHER para o seu melhor amigo, e a sua descrição já não é mais aquela de quem apenas viu, mas outra, de quem se apaixonou: olhos dum verde oceânico, cabelos dourados de sol, corpo escultura divina. O seu amigo comenta a descrição, acrescenta e subtrai, e grava na memória não a imagem de uma mulher, mas uma metáfora da natureza.

‘Mulheres’ – Última Parte

ALÉM DO ESPELHO

TALVEZ a noite já tivesse chegado, mas ele não tinha certeza. Estava na padaria há pelo menos oito cervejas, ou quatro conhaques, vai saber. Difícil determinar o tempo nessas condições. A única coisa que sabia de fato, que sentia como um prego nas costas, era sobre a solidão. A sua solidão. Tão sólida quanto o balcão repleto de garrafas.


(Na semana que vem, a estreia de NACOS DE NECAS & OUTRAS HISTÓRIAS. Não perDam!)