17 de mar. de 2010

As (im) perfeições do nosso amor

Por Rogers Silva


Eu te amo eu te amo eu te amo, saiba, insistia em dizer. Sei, murmurei. E eu também. Mas...
Um vôo entre as estrelas e o chão
– Rogers Silva
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Seu amor me faz mal, Jalousie (sempre odiei seu nome, achava meio feminino). Anulou o que mais de essencial e prazeroso a vida pode (e pôde, antes de você) me oferecer. Sim, são reclamações, à altura dos instantes (e instante é tudo) que me fez perder. E ganhar, porque com você instantes de companheirismo e amizade eu pude (como não conhecera antes) ter. Você me faz falta, Jalousie. Três dias são o bastante para a dor entrar, e corroer. Três dias foram o máximo (em vinte e três anos) que ficamos longe um do outro. A falta que você me faz é semelhante ao mal que você me faz. A falta – a que fui obrigado a render – dói. A falta, a ausência doem, meu Cego-luz (prefiro assim). Com você, a falta do sublime, do transcendental. Sem você, a falta de você. Tudo é ausência. Como me acostumar a um mundo onde tudo é ausência? Com você (porque você insiste em não querer transgredir), a mesmice enfim. Seu amor é pouco: não se entrega. Às vezes preferiria que fosse uma paixão ardente, passageira, mas sublime, feita de instantes intensos e inesquecíveis. Seu amor é muito, e bonito: não consegue ficar sem mim. Seu amor é estranho, Jalousie. Está sempre adiando. Um dia (um dia em que não estarei) vai perceber que o amanhã não existe. Seu medo é maior que seu amor. Suas convicções são maiores (muito maiores) que seu amor. Seus preconceitos. Porém, seu amor me faz bem, Jalousie. Me trouxe calma e segurança num mundo outrora caótico, o mundo meu. Seu amor, meu Cego-luz, me faz muito bem: me fez enxergar beleza na rotina, no banal. Seu amor é banal. Tão banal quanto as tradições a que dá tanto valor. Tão banal quanto as leis e leis que tentam sufocar o amor (o intenso), e possíveis e infinitas concretizações desse amor. Seu amor é bonito, Jalousie. Um amor que suporta e perdoa e esquece tão facilmente. Um amor bonito, que acredita no renovar espontâneo do amor. Um amor ingênuo, abstrato, ainda livre da crueza do mundo. Livre das corrupções do mundo. Da crueldade do mundo. Livre. Seu amor é estranho, meu Cego-luz. Conforma-se com pouco. Conforma-se, às vezes, com o nada, e o nada me angustia. Com esse amor ganhamos força para enfrentar (juntos ou separados) o futuro. Mas perdemos o instante. Estamos sempre adiando o amor para um futuro, um futuro que não virá. O amanhã não existe. Com você passei a valorizar o dia-a-dia. Por outro lado, me afastei da magia. Aprendi, com você, a enxergar magia onde magia não havia. Mas anulei minhas fantasias, as grandes (que provavelmente nunca seriam realizadas). Com você, a esperança. Com você, a falta (tempos em tempos ela morre) de esperança. Jalousie, me faz bem o seu amor. Faz tão bem que assassinei os “amores (inventados) da minha vida”. Pois você (sem eu ou você querer) se tornou o amor da minha vida. Não precisei mais de viver de fantasias: você se tornou minha fantasia diária. Seu amor, porém, não excede: está sempre normal. É preciso deixá-lo por si só exceder, pois é no excesso que surgem a beleza e a felicidade extrema. Seu amor adia: não é um amor que valoriza o presente. Seu amor é desprendido. Seu amor é premeditado: vem ao meu encontro com a intensidade contada. Hoje, tanto. Amanhã, tanto. Seu amor é medroso: tem medo de mim. Tem medo de se aumentar. Tem medo da solidão e do abandono. Seu amor é covarde. É forte, pois não necessita de magia. Necessita, tão-somente, de se saber amado. Se tem dúvidas, chora. Se tem certeza, se fortalece, e se recupera. Seu amor é forte: me suporta. Seu amor é forte: está arraigado às suas convicções que nunca lhe trouxeram vida. Apenas segurança. Jalousie, com você eu posso dançar ou não dançar. Fazer ou não fazer. Com você não tenho vergonha de ser apenas eu. Com você posso andar descalça e não me constranger, pois a sua humildade me traz serenidade, e segurança. Me sinto segura com você: posso fechar os olhos. Me sinto fortalecida com você: enquanto estamos juntos, caminhamos juntos, sempre de mãos dadas. É, meu Cego-luz, a minha fortaleza: sempre espero (com razão) de você: “Eis o meu apoio”. Um amor pueril, de menino que não sabe nada da vida. Nem do amor. Um amor a la Jalousie, frio e forte. Um amor que necessita de manual de instruções: faça isso, faça aquilo. Não tem o encanto da audácia e da descoberta. É covarde, pois é insosso. É forte, pois perdura apesar dos espinhos do dia-a-dia. É um amor simples, despretensioso, que dá valor no pastel de todas as sextas-feiras. Dá valor no almoço de domingo juntos. Dá valor no encontro marcado. Porém desvaloriza e subestima a saudade: tem medo da distância, pois viciamos um no outro. Vicio só é vício quando se torna necessidade: temos necessidade diária um do outro. Seu amor é grande: nasceu grande, do tamanho da vida, tanto que a entregou a mim (está guardada aqui, na caixinha de anéis, protegida por minhas mãos. Vou levá-la comigo). Seu amor é paciente. Jalousie, seu amor subsiste aos meus ataques de fêmea ferida. Seu amor é maior do que minhas chantagens. Seu amor não se excede: não grita, mas chora quando há dor. Seu amor suporta, pacientemente, a dor. Seu amor é como sua beleza: constante, imutável. É impalpável: não tem como pegá-lo. Você, assim como seu amor, é admirável: não pela grandeza, mas pela simplicidade (em que há grandeza). Em seu rosto, como em seu amor, não há mau humor: está sempre disposto a sorrir, inclusive por entre as lágrimas e apesar de não poder admirar a beleza de uma flor. Seu amor é flexível, disposto a aprender, mas aprende devagar e despreocupadamente. Seu amor é inflexível, pois as aprendizagens nunca são concretizadas: espera por um momento que não virá. Nunca virá: o amanhã não existe. O que os outros pensam e falam é maior que seu amor. Acostumou-se a viver assim: tenso, preso, preocupado com as manifestações do seu amor. E por isso as manifestações do seu amor são poucas, quase inexistentes. Mas são muitas, a seu ver, e isso é tudo. Infelizmente é tudo para você, não para mim.
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De alguém que não pretende mais voltar,
Dona.
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*Do livro Manicômio, ainda inédito.
** O mundo desencantado de Desseres, o conto anterior da série Amor amor: ruínas, publicado
AQUI
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